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Mil crônicas

Quanto tempo se leva para escrever 1.000 crônicas? Cerca de duas dezenas de anos. A idade de um jovem que deseja mudar o mundo e, de quebra e lambuja, não morre

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 03h00

Um amigo querido me perguntou: Roberto, de que cartolas você tira tantos coelhos? Respondi que não era bem de uma cartola que os bichinhos saíam, mas um mar. Porque escrever é o modo mais profundo, feliz e misterioso de entrar em contato com o mundo infinito da língua que falamos a qual constrói todo um universo com seus coelhos e dragões, seus sonhos e pesadelos.

É, pois, com um misto de felicidade e de orgulho que escrevo esta milésima crônica neste Estadão cujo ideal eu compartilho.

Quanto tempo se leva para escrever 1.000 crônicas? Cerca de duas dezenas de anos. A idade de um jovem que deseja mudar o mundo e, de quebra e lambuja, não morre. Continuo firme no primeiro propósito, infelizmente, porém, os 84 anos me obrigam a abraçar com contida resignação a transitoriedade.

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Não fui criado numa casa de intelectuais. Os livros que encontrei na casa dos meus ancestrais repousavam esquecidos numa pequena estante que pertencia ao famoso teatrólogo Armando Gonzaga, pai de tia Lucília e sogro de tio Mário. Nessa estante eu descobri e, escondido, desfrutei A Carne, de Júlio Ribeiro.

Meus pecados secretos e perguntas irrespondíveis me levaram à escrita. Essa modalidade de comunicação que cimentou um pensamento para fora dos mitos e das anedotas, dos casos contados ao pé do fogo ou na varanda dessa casa do meu avô Raul e de minha avó Emerentina. 

Uma casa sem livros talvez porque sendo fundada por viúvos com filhos que conseguiram – só Deus e o espírito da literatura sabe – conjugar uma família de filhos e de enteados de dois casamentos e, para culminar, um amor de um filho do viúvo pela filha da viúva: ele meu pai, ela, minha mãe. Que livro superaria tal enredo?

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Tirando, porém, as cartolas das quais saíram os meus coelhos, observo que o jornal diário sempre esteve presente na nossa casa. Tanto que até hoje me surpreende descobrir como alguém sabe de alguma novidade fora das páginas grandes, barulhentas e tão importantes quanto descartáveis de um jornal. Um diário da vida cujo conteúdo molda com modesta precisão aquilo que nenhum historiador foi capaz de plenamente realizar: os ínfimos acontecimentos garantidores do bom senso do mundo e, em grandes letras, os eventos que colocam em dúvida essa rotina. 

Quando era menino, ouvi o que havia “saído no jornal” pela voz do meu pai que, tal como o pai do meu pai, ambos sentados em cadeiras de balanço de vime, comentava as novidades da política e as “loucuras” do mundo. 

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Imagine pois o leitor o tamanho da minha ventura ao ser um dos fazedores desse jornal que diz tudo antes dos livros...

Foi uma certa antropologia que me levou às redações, quando um celebrado jornalista chamado Fernando Mitre me convidou, em abril de 1996, a fazer uma leitura de São Paulo para o Jornal da Tarde. Nessa ocasião nasceu minha ligação com a escrita jornalística. Uma escrita que combina modéstia e arrogância, o vezo permanente da letra impressa com o transitório dos fatos e dos comentários. E para um professor pesquisador como eu, a dura arte de ler, reler e cortar, tornando o texto cabível no meu espaço dentro de uma complexa hierarquia. Foi, pois, nas oficinas do Estadão que fui conhecer o jornal dos jornalistas. O mesmo ocorreu quando visitei O Globo convidado para com ele colaborar por um saudoso Rodolfo Fernandes.

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Como se faz para não deixar de ter assunto? 

Fácil: a confiança na escrita como uma realidade concreta da minha vida. O fato de saber o seu poder de fazer e desfazer o mundo. A sua capacidade de inventar casos e mitos. Mitos que desmistificam mitos... 

A escrita é um poder. É ela que nos mede e permite a busca permanente de coerência e de uma verdade que a própria escrita revela mutável e assustadoramente transitória. Ela é, por assim dizer, a guardiã de um sistema baseado na mudança, pois é com ela que se busca consistência e se encontra a ancoragem e que, por ser impressa em bronze ou nos corações, conforme dizia Rousseau, pode ser confrontada com os feitos e os malfeitos. 

Sendo muda e necessitando de leitura e voz, a escrita nos baliza em suas diversas interpretações. Porque somente nós, humanos, temos versões e sentenças quando assassinamos, invadimos, traímos e somos dominados pela hipocrisia. No meu caso, o assunto tem sido sempre centrado no Brasil, o qual eu jamais – por orgulho e amor – esqueci ou abandonei, mas um Brasil lido por meio do protagonismo das suas festas e costumes. Da casa para a rua e vice-versa. 

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Foi assim que cheguei a essas 1.000 crônicas, que causam bons a maus sentimentos. Nesta ocasião festiva, quero ressaltar a admiração de uma certa leitora. Uma neta, escrevendo por ela e por todos os que têm uma ligação inexorável comigo, deu-me o maior e melhor reconhecimento que jamais pensei em receber em toda a minha vida: a palavra do descendente sem escolha que se torna amigo por amizade. 

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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