MIKKELSEN SENSACIONAL

Vilão de 007 brilha no intenso e desconcertante A Caça, que lhe valeu prêmio em Cannes

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2013 | 02h15

Thomas Vinterberg já havia abordado o polêmico tema do abuso infantil em Festa de Família. Lembram-se? A festa do título virava o momento em que a família se reunia, afloravam os ressentimentos e vinha à tona a revelação de que o patriarca, cujo aniversário se comemorava, havia abusado dos próprios filhos. O tema volta agora em A Caça, que deu a Mads Mikkelsen o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes do ano passado. Ele faz o professor acusado de abusar de menina no jardim de infância. A acusação não tem fundamento - o espectador sabe -, mas o professor é estigmatizado e discriminado. Os amigos desertam e ele não tem como provar a inocência. As reações tornam-se violentas. A caça do título ganha múltiplas conotações.

Antes de virar o vilão de 007 - Cassino Royale, de Martin Campbell, infernizando a vida de Daniel Craig, Mads Mikkelsen já era um ator conhecido do público. Ele foi o Stravinski do belo filme de Jan Kunen sobre a ligação do compositor com a estilista Coco Chanel. No ano passado, além do prêmio em Cannes, participou de A Royal Affair, de Nikolaj Arcel, que valeu a seu colega de elenco - Mikkel Boe Folsgaard - o Urso de Prata de ator em Berlim e ficou entre os cinco indicados para o Oscar de filme estrangeiro neste ano.

O próprio Mikkelsen disse ao repórter, em Cannes, o que o atraiu no projeto de A Caça. "Foi o fato de abordar um tema complexo como o abuso infantil sem apontar o dedo acusador para ninguém. Lendo o roteiro, eu conseguia entender todo o mundo, do meu personagem aos pais da menina que sou acusado de abusar. Isso é raro, e o filme ainda trata dos riscos da correção política. Muita coisa dessa tragédia vem do fato de que as pessoas, na comunidade, estão querendo ser corretas."

Embora seja um ator 'internacional', ele estava particularmente feliz porque o sucesso de A Royal Affair e A Caça celebrava o cinema de seu país, a Dinamarca. "Foram filmes que fiz com amigos, quase em família", definiu. Sobre a parceria com Vinterberg, foi taxativo - "O roteiro era muito bem escrito, mas ele sempre deixou espaço para nossa improvisação (dos atores). Foi um filme feito em equipe, com muita colaboração, mas o maestro (o regisseur) era ele".

A Caça é muito bem construído, como se um cerco se fechasse em torno do personagem de Mikkelsen. O clima torna-se opressivo e o público, que se identifica com o herói oprimido, espera por sua reação. A cena em que Lucas (Mikkelsen) vai à igreja é quase insuportável pelo grau de tensão. A violência vai terminar gerando mais violência. Quando ela ocorre, há uma catarse. Em Cannes, a plateia - jornalistas de todo o mundo - aplaudiu na cena do supermercado. Também em Cannes, na coletiva após a primeira exibição de A Caça, o diretor falou sobre as pesquisas que fez com o roteirista Tobias Lindholm. "Nos inspiramos em vários casos de abusos sexuais publicados na imprensa. E o que constatamos é que as crianças são duplamente vitimizadas, porque quase sempre elas precisam mentir aos adultos, para satisfazê-los. Temos um provérbio na Dinamarca que diz que apenas as crianças e os bêbados dizem a verdade. É mentira. Fizemos questão de deixar portas abertas que questionam isso."

Vinterberg surgiu no Dogma, o movimento de cinema criado na Dinamarca por Lars Von Trier. A ideia era fazer um cinema despojado e minimalista. Os cinéfilos dificilmente vão resistir à tentação de aproximar A Caça de Dogville, de Von Trier. Outra referência possível é Sob o Domínio do Medo, de Sam Peckinpah. Ambos retratam a histeria dos comportamentos de grupos, com falta de lógica e emoção à flor da pele. Vinterberg não rebate as referências, mas diz que não são conscientes. "Como espectador, muita coisa ficou armazenada no meu imaginário. Depois do filme pronto, mais do que aquilo que pensei é importante o que o público vai pensar."

No filme, as acusações contra Lucas começam como rumores, sem nenhuma comprovação. Para o espectador, não há nenhuma dúvida de que ele é inocente - Lindholm e Vinterberg deixam as coisas perfeitamente claras. "Toda informação circula hoje rapidamente, como um vírus. Com a internet é parecido. O mundo virou uma pequena aldeia onde existem rumores demais." Justamente por isso era importante que o espectador não tivesse dúvidas, mas isso é apenas preparativo para o desfecho, cuja ambiguidade parecerá desconcertante a quem espera uma solução para o drama. Nada de preto no branco. "Nossa ideia é de que o mais importante de tudo é o amor entre os personagens, mas seria utópico terminar A Caça como se nada tivesse ocorrido. O filme é inconclusivo para retirar o espectador da sua zona de conforto."

Num filme com tantas cenas fortes, Mikkelsen admite que nenhuma foi tão difícil de filmar quanto a do seu reencontro final com a garotinha. "Ela é fantástica, mas Thomas (Vinterberg) fez todo um trabalho porque a ambiguidade final do filme depende muito desses momentos particulares. Do reencontro com ela, da rejeição na igreja, da atmosfera de sonho do desfecho." Para o ator, o que é mais difícil - o vilão de Cassino Royale ou a vítima de A Caça? "É divertido fazer o bad guy, mas como ator, o desafio de A Caça é maior. Não se trata só de criar um homem acuado, humilhado, violentado. Tudo isso é ferramenta para o pathos e é isso, como intérprete, que tenho de expressar."

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