Miguel Rio Branco inaugura mostra na Galeria Millan

Contrapondo-se à era publicitária em que vivemos, povoada por um volume cada vez maior de imagens vazias, captadas de maneira febril e displicente por uma multidão ávida por novidades, Miguel Rio Branco vem mergulhando em seus arquivos, buscando em imagens flagradas há anos os elementos necessários para expressar sua visão fragmentada e poética do mundo. Dentre as dezenas de fotos reunidas em Dislecsias - trabalho que exibe a partir desta terça-feira, 20, no térreo da Galeria Millan, depois de ter sido mostrado na Holanda - pouquíssimas são novas e a grande maioria é inédita. A cor, trabalhada de forma extremamente cuidadosa em trabalhos anteriores, também foi apagada, diminuindo as distâncias entre os vários tempos e elementos representados. Numa montagem que potencializa os significados das imagens, lembrando a afinação de uma pequena orquestra, Rio Branco continua explorando o mesmo universo de referências. O corpo e o sexo, as máquinas e os animais se fazem presentes de forma repetitiva. Lá estão imagens de corpos femininos, carros, carcaças de boi, cobras que se insinuam na relva, estabelecendo uma relação direta com as pulsões mais inconscientes. Trata-se, na verdade, de um mosaico de fragmentos, que adquirem maior força porque isolados de seu contexto, rompendo com a ambição de um registro claro, fiel e de técnica apurada. ?Eu me coloco visceralmente contra tudo isso. A fotografia nunca esteve tão documental. Está até reacionária?, afirma ele. Rio Branco destaca o enorme paradoxo de vivermos uma overdose de informações visuais, sob o domínio absoluto do mercado, dos meios de comunicação e da publicidade ao mesmo tempo em que há uma incapacidade geral de as pessoas se comunicarem umas com as outras. ?Vivemos uma época mentirosa?, diagnostica. Como uma espécie de metáfora desse desconforto perante a incapacidade de a arte conseguir preservar a conexão com as experiências vivenciadas (em vez de manter-se apenas atenta ao que ocorre na superfície), ele propõe uma enigmática e terrível videoinstalação. Intitulada Epilectronic, a obra apresentada no segundo andar da galeria (já vista ano passado no Rio) tem por cenário uma série de carcaças eletrônicas, um chão de luzes cibernético e decadente. Uma espécie de ?tsunami eletrônico?, resume. Nessa ambientação é exibido um filme de um peixinho japonês que ele tinha no aquário de sua casa e que contraiu uma estranha doença que o deixou totalmente desorientado, nadando sem referências, em looping, sem saber mais o que é em cima e embaixo. Qualquer semelhança entre o peixe e a falta de norte no mundo contemporâneo - e não apenas no que tange à arte - não é mera coincidência. Além desses dois trabalhos, a mostra apresenta ainda outras obras pontuais do artista, como as aquarelas e a vitrine construída logo à entrada da exposição com objetos curiosos que mantinha em seu ateliê (como luzes de néon, um coração de plástico e muitos espelhos). Esse bric-a-brac de elementos, cuja principal razão de estarem aí alocados talvez seja a de evidenciar a necessidade de exprimir-se poeticamente por intermédio dos mais diferentes meios - recusando explicitamente o título reducionista de fotógrafo -, acaba por reforçar também dois aspectos centrais de sua trajetória. Em primeiro lugar reitera a importância da colagem, da criação de elos invisíveis entre os elementos, ampliando dessa forma a carga simbólica dos vários fragmentos. E também amplifica o caráter surreal desse trabalho, que encontra eco não na superfície rasa do registro ?bigbrotheriano?, mas numa mobilização muitas vezes inconsciente de camadas distintas da percepção. Miguel Rio Branco. Galeria Millan. R. Fradique Coutinho, 1.360, 3031-6007. 2.ª a 6.ª, 10 h às 19 h; sáb., 11 h às 15 h. Até 21/4. Abertura hoje, 20 h

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