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Fábio Porchat
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Mídia

Fui dar uma entrevista para divulgar minha peça. Lá pelas tantas, a repórter me pergunta se estou namorando. Não entendi o link. Ela disse que o público quer saber. Eu pensei: a pessoa está lendo uma reportagem com o intuito de se inteirar sobre o espetáculo, está decidindo se vai ou não vai me assistir, no que exatamente influencia a decisão dela se estou ou não namorando? Você leitor, já tomou alguma decisão assim? Ih, o Leandro Hassum casou, não vou ao show dele mais não. 

Fábio Porchat , O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2015 | 02h00

A repórter falou: as pessoas gostam de ver essas coisas. Quando estou dirigindo na estrada e acontece um acidente, todos os motoristas diminuem a velocidade para ver a batida. As pessoas gostam de ver esse tipo de tragédia. Nem por isso vamos fazer um site só com fotos de acidentes e pessoas machucadas. A mídia não tem que mostrar o que as pessoas querem ver, tem que informar aquilo que é pertinente. 

Se estou fazendo uma matéria sobre amor e quero falar sobre a minha vida pessoal, maravilha, foi decisão minha e faz parte daquela publicação, tem a ver falar do meu relacionamento. O que acontece é que por trás de uma suposta vontade de falar sobre o seu trabalho, o que o jornalista quer mesmo é vender revista ou, mais modernamente falando, conseguir cliques. E é claro que o título da matéria não será: Fábio Porchat está em cartaz com a peça X, e sim: Agora amando, Fábio Porchat revela que está namorando. Isso realmente pode até atrair mais visualizações, mas tem que partir do veículo a divulgação do que é relevante. 

As pessoas que gostam de saber sobre essas bobagens têm culpa por serem superficiais? Sim. Mas a mídia tem que, pelo menos, tentar nivelar por cima. 

Outra pergunta bastante indiscreta é: você é gay? A diferença entre um gay e um heterossexual é a opção sexual. A única coisa que diferencia um homem gay de um homem não gay é que o gay transa com homens e o não gay com mulheres. Quando você pergunta para um homem se ele é gay, você no fundo está perguntando: você transa como?

Vamos combinar que essa é uma pergunta bastante íntima, certo? É como se alguém perguntasse: você gosta mais de frango assado ou de quatro? Imagino que, para quem é gay, talvez seja uma pergunta bastante invasiva. E, mais uma vez, no que isso influencia o público? Não vou mais assistir ao show do Ney Matogrosso porque ele é gay. Se você tem essa opinião, tenho certeza que o Ney até prefere que você não vá ao show dele.

E o pior é que se não respondo a uma pergunta pessoal, ainda saio mal da história. Porque a entrevistadora vai publicar que: indagado sobre relacionamentos Fábio desconversa, o que será que ele está escondendo? E se você dá muitas explicações, parece que você está se defendendo. 

Leitor, já que boa parte da mídia não está fazendo a parte dela direito, tente você fazer a sua. Da próxima vez que você vir uma manchete dizendo: Cláudia Raia tem novo affair, vá ler um livro.

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