Michelle DeYoung encena ´Romeu e Julieta´ em SP

Americana que se apresenta na Sala São Paulo fala ao Estado sobre a carreira

Agencia Estado

21 de junho de 2007 | 12h40

Diga-me com quem andas... A máximapopular também se aplica à música clássica. Veja o caso dameio-soprano americana Michelle DeYoung. Aos 36 anos, ela jágravou Berlioz com Colin Davis, o grande responsável pelareabilitação da obra do compositor francês; com o decano PierreBoulez, está rodando o mundo em turnês dedicadas às canções esinfonias de Gustav Mahler; caiu nas graças do maestro DanielBarenboim, que a tem introduzido no mundo de uma de suasespecialidades, as óperas de Richard Wagner; nos EUA, tem comopadrinho o maestro James Levine, talvez a maior autoridade emópera mundo afora. A lista é um pouco maior, mas já deu para seter uma idéia. Michelle é estrela em ascensão no cenáriointernacional. E a partir desta quinta-feira, 21, participa daapresentação do Romeu e Julieta, de Berlioz, na Sala São Paulo. Inspirada em Shakespeare, a obra foi chamada pelocompositor de sinfonia dramática. No palco, orquestra (a Osesp,sob regência do maestro israelense Yoram David) e três solistas(além de Michelle, o tenor Rubens Araújo e o baixo MathiasHölle) se revezam ao contar a história do amor impossível dosdois jovens de Verona. É uma das partituras mais interessantesde Berlioz. "Acabei de fazer em Nova York A Morte de Cleópatra, que é uma obra do início de sua carreira, em que fica claro queele não sabe muito bem como escrever para a voz", diz Michelle.E ela logo completa. "Mas em Les Troyens, no entanto, já éoutra história, assim como em Romeu e Julieta." Ela gravou Les Troyens com Colin Davis em Londres. Oprojeto alçou seu nome como intérprete do compositor. Mas, antes vamos voltar ao começo de tudo, nos anos 80, em uma pequenacidade no interior do Colorado, nos Estados Unidos. Michelleconta que sua família era muito musical. Ela e as três irmãsestudaram piano, violino, cantavam no coral da escola.Preparando-se para um futuro na música? "Na verdade, sempre meimaginei casada, com um bando de filhos, aproveitando os fins desemana para acampar. Adoro pescar, sabia?", ela conta, rindo. Na universidade, porém, o maestro do coral a ouviu esugeriu a ela que se dedicasse ao canto. Ela se deu um prazo. Seaté os 25 anos conseguisse uma carreira, ótimo. Se não dessecerto, seguiria outro caminho. Para encurtar a história: aos 22anos, ela era aceita no programa de jovens artistas doMetropolitan Opera de Nova York. E, aos 25, fazia sua estréia noteatro, pouco antes de, na Califórnia, gravar seu primeiro disco com obras de John Corigliano.Influência de Wagner Michelle conta que a música do século 20 - não apenasCorigliano, mas também John Adams, Tan Dun ou Eliot Carter - ainteressa bastante. Diz que foi muito curiosa a participação, nocomeço do ano, da estréia mundial de The First Emperor, óperade Tan Dun. "Foi doido demais. O diretor, o cenógrafo, afigurinista só falavam chinês. Eles tinham conversaslonguíssimas na nossa frente e eu ficava pensando: ‘Bom, algo mediz que eles estão falando de mim e que eu devia estarentendendo.’ Mas no final deu certo." Michelle não hesita, porém ao eleger como sua preferência os autores do século 19. Sua voz diz, é essencialmente germânica. E, nesse contexto, RichardWagner coloca-se como referência obrigatória. Ela já haviacantado a Vênus, do Tanhauser, mas, nos últimos anos,orientada por Barenboim, fez sua primeira Kundry, em Parsifal,na Ópera Estatal de Berlim. Em Nova York, foi Sieglinde naValquíria, par romântico do Siegmund de Plácido Domingo. "Opúblico urrava quando fomos receber os aplausos. Queria podersempre estar acompanhado do Domingo nessas horas, ele é um Deus.E nossas cenas foram extremamente quentes", ela brinca, sorrindo A ópera, no entanto, foi o segundo passo na carreira deMichelle. "Meus primeiros dez anos passei fazendo concertos. Nãovia a hora de subir ao palco para interpretar os grandes papéisde meio-soprano. Mas hoje vejo que foi bom começar com orepertório de canções, consolidando minha técnica." Foi por isso aliás, que ela se recusou a trocar de registro. Explica-se. Avoz de meio-soprano é mais grave que a da soprano. Mas Michelle,além das cores mais escuras, tem belas notas agudas, o que levoualguns professores a sugerirem que ela mudasse seu registro demeio-soprano para soprano dramática. "Resisti de todas asmaneiras à mudança de registro. Por quê? Porque não queriaabandonar todo o repertório de canções para meios-sopranos. AmoMahler. Sua música mexe muito comigo, há algo na maneira comoele combina os instrumentos da orquestra, ele nos oferece umaviagem pelas emoções humanas, sempre com um final de algumamaneira esperançoso." Não por acaso, sua gravação doKindertotenlieder, feita em 2004 em São Francisco, levou oGrammy de gravação clássica do ano. De volta à ópera, Michelle vai fazer no ano que vem aprimeira incursão pelo repertório italiano, a Eboli, do DonCarlo de Verdi. É um teste, diz - nem sempre um cantor é capazde fazer bem compositores alemães e italianos. Ainda sobreWagner, ela começa a sonhar com a possibilidade de cantar Isolda Barenboim já disse que não vê a hora. Mas ela é cuidadosa. "Éalgo para daqui a cinco, dez anos. Só então vou saber se épossível ou não. Nessas horas é preciso ser responsável. Mas queeu queria muito, mas muito mesmo, que desse certo, eu queria." Romeu e Julieta. Sala São Paulo (1.484 lug.). Pça. JúlioPrestes, s/n.º, tel. 11-3223-3966. 5.ª e 2.ª, 21 h; sáb.,16h30. Ingressos de R$ 25 a R$ 89

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