Michel Piccoli é favorito ao Pardo de Ouro em Locarno

No filme 'Sous Les Toits de Paris', ator de 82 anos prova que está em plena forma

Flávia Guerra, do Estadão,

07 de agosto de 2010 | 15h45

"Este filme fala não só da velhice, da solidão na velhice, mas também da falta de solidariedade que vem tomando conta da Europa ocidental nos últimos anos. Veja o caso de tantos velhinhos que morreram na França nos últimos verões fatídicos. E ninguém se deu conta deles. Isso é algo muito simbólico", declarou o ator francês de origem italiana Michel Piccoli após a sessão de seu filme Sous Les Toits de Paris (Sob os tetos de Paris), que concorre na competição oficial de Locarno. Aos 82 anos, Piccoli prova que está em plena forma ao comover a platéia que lotava a sala do cinema Fevi (o maior do festival), na cidade suíça. Piccoli é um dos atores mais tarimbados e prestigiados de sua geração. De O Desprezo (de Godard) a Bela da Tarde (de Buñuel), o ator esbanja talento e sabedoria diante da platéia encantada que o acompanhou na première mundial de Sous Les Toits de Paris. Diretor iraquiano Dirigido pelo iraquiano de origem curda, Hiner Saleem, o mesmo diretor do ótimo Vodka Lemon, filme pouco conhecido no Brasil, onde chegou pelas mãos de Leon Cakoff para ser exibido na Mostra de Cinema de 2004. O longa-metragem Vodka Lemon já e tido como um dos favoritos ao Pardo de Ouro, o principal premio do festival.  Saleem possui uma filmografia interessante. Emigrou do Iraque, formou-se na Itália onde dirigiu seus primeiros filmes, mudou-se e se estabeleceu em Paris, onde hoje realiza seus trabalhos. Ao lançar seu olhar estrangeiro sobre uma Europa aparentemente bem resolvida e confortável, ele escancara as mazelas de uma sociedade que há tempos deixou de se importar com o ser ao lado. Neste belo drama, que seria trágico se não fosse cômico, ele conta a historia de três idosos. Marcel (Piccoli), Amar (Maurice Benichou) e Thérèse (Mylène Demongeot). Os dois tem cerca de 80 anos e dividem uma tarde da semana para, literalmente, tomar banho, pois o prédio decadente em que vivem em Paris não tem água no sexto andar, onde moram, e o único banheiro vive cheio. Os dois, solitários e rabugentos, encontram-se em uma piscina publica para tomar a ducha da semana e dividir o tempo. Thérèse è uma garçonete de cerca de 60 anos que continua bela e apaixonada por Marcel mesmo depois de décadas. Apesar da atração mútua, e da vitalidade de Marcel, há mais desencontros que encontros entre os dois. A solidão, a indiferença, a ausência da família, de amigos, a proximidade da morte são temas que permeiam uma das mais humanas e, ironicamente, verdadeiras do cinema francês recente.  Piccoli, homenageado festival, não sabe dizer se é forte candidato ao prêmio de melhor ator também. "Não sei. Na minha idade, continuar trabalhando, ter amigos, família e uma vida plena já é um prêmio e tanto, não acha?", respondeu ele ao Estado.  De fato. Vida longa ao bom cinema de Piccoli e Saleem.

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