Michel Laub lança segundo volume de trilogia

'Maçã Envenenada' integra série 'sobre os efeitos individuais de catástrofes históricas'

João Cezar de Castro Rocha - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

24 de janeiro de 2014 | 20h53

A maçã envenenada, informa o texto da orelha do romance, “é o segundo volume da trilogia sobre os efeitos individuais de catástrofes históricas”.

Justo – tudo indica.

O enredo se articula a partir do cruzamento de três feitos: o suicídio de Kurt Cobain em abril de 1994; o massacre da etnia tútsi ocorrido em Ruanda na mesma data; o suicídio de Valéria, namorada do narrador.

A prestimosa síntese parece ainda mais adequada quando se abre o livro: “Um suicídio muda tudo o que seu autor disse, cantou ou escreveu”.

A reflexão proposta em A maçã envenenada estabelece um intrigante paralelo entre os dois suicídios e uma adesão incondicional à vida. Assim, a opção de Kurt Cobain e de Valéria conhece o contraponto da “estudante de engenharia Immaculée Ilibagiza”. Toda sua família foi massacrada e, em condições próximas do insuportável, ela se agarrou à precária existência com a mesma obstinação cega com que os outros dois dela desistiram. De igual modo, a última frase do romance insinua que, confrontado com uma situação-limite, o narrador optou pela literatura.

Há, contudo, um problema nessa descrição disciplinada do projeto de Michel Laub. Trata-se de “simples” questão cronológica.

Ora, Valéria se suicida em janeiro de 1993, momento em que Kurt Cobain veio ao Brasil: “o Nirvana era a principal atração do Hollywood Rock”.

Assim, o tema do romance não pode ser o efeito de um acontecimento epocal na vida de cada um de nós, porém seu impacto na reconstrução que fazemos de nossas intenções e escolhas pretéritas.

Como se fosse um baixo contínuo, o narrador busca organizar o passado através de um artifício hermenêutico: “em cada uma dessas lembranças uma palavra ou um gesto ou expressão que me alertasse sobre o que onze meses depois começaria a parecer retrospectivamente uma fatalidade”. Um pouco adiante, surge a imagem propriamente conceitual: “fatalidade retrospectiva”.

Mais ou menos como o dilema de Bento Santiago em Dom Casmurro.

No fundo, um dos temas fundadores da tradição – das evocações homéricas à máquina da memória proustiana.

Somente nesse círculo o romance de Michel Laub revela sua força, tornando-se inquietante.

Explico: nas suas páginas o leitor não encontra referências a autores de literatura e a figura do livro é antes uma abstração na prosa do narrador. Sua memória afetiva depende do mundo do audiovisual, não do universo letrado.

Vejamos.

“Crescer lendo sobre música é como autoajuda ao contrário”, pois a narrativa da tragédia dos maiores ídolos populares parece antecipar a “fatalidade retrospectiva”, estruturadora do romance. Daí, o dado-chave: o bilhete suicida de Kurt Cobain “terminava com uma citação de Neil Young”.

O narrador retorna obsessivamente a um exercício interpretativo: “Nenhum comentou o bilhete de despedida”. A alusão pontua o texto, assinalando a complexidade potencial das letras da música e da última mensagem do compositor. As palavras finais de Cobain deviam conter “o código que explicava a razão de ele estar naquele lugar e naquele dia com aquela arma na mão”.

(Rosebud, por assim dizer.)

Além da música pop, A maçã envenenada destaca a centralidade do cinema e da televisão na formação das gerações mais jovens. Recorde-se o motor da primeira opção de carreira do futuro jornalista: “Eu entrei para o direito porque gostava de ver filmes de tribunais”. De modo semelhante, o leitor descobre a forma peculiar de sua erudição: “Eu nunca tinha lido a Bíblia. Até então o que conhecia a respeito se limitava aos Dez Mandamentos, à Arca de Noé, e demais episódios do Gênesis diluídos em filmes da Sessão da Tarde”.

O título do romance, aliás, refere-se à tradução, feita por Valéria, de uma canção do Nirvana. Os versos de Drain you, “You’ve taught me everything / Without a poison aple”, sofreram uma torção significativa: “Você me ensinou tudo ao me dar / a maçã envenenada”. O equívoco é tão banal que precisa ser lido pelo avesso: o suicídio de Valéria, o postal enviado postumamente no dia do aniversário do narrador, a troca de without por with anunciam a perda da inocência e a descoberta radical da ausência de um sentido totalizante.

A literatura argentina, sugeriu Ricardo Piglia, originou-se de uma má tradução.

Por que não imaginar que a experiência literária mais perturbadora busque uma resposta à perda de centralidade da própria literatura no mundo contemporâneo?

(Valéria acertou no alvo ao substituir o otimista without pelo corrosivo with.)

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