Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

Michel Ciment e o amor aos filmes

Lendário crítico da revista Positif fala da tarefa como jurado, elogia o Cinema Novo e abomina Tropa de Elite

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

Michel Ciment elogia o formato "democrático" da escolha do melhor filme da Mostra. O anúncio dos filmes que vão concorrer ao troféu Bandeira Paulista será feito amanhã. Como sempre, a Mostra seleciona os dez preferidos do público e os submete à apreciação do júri internacional. Ciment integra o júri com, entre outros, o cineasta Alan Parker (leia entrevista abaixo). "Mesmo que a seleção do público tenha sido feita com base numa curadoria, o termômetro do público é importante. Ao longo da história do cinema, muitas vezes o público se antecipou aos críticos na escolha de autores importantes. Foi o caso de (Alfred) Hitchcock, por exemplo."

O repórter aproveita a deixa - com mais de 6 milhões de espectadores, Tropa de Elite 2 converteu-se esta semana no filme mais visto desde a Retomada do cinema brasileiro, em meados dos anos 1990. Ciment conhece o filme de José Padilha. "Vi o primeiro; o segundo, ainda não." E...? "Tropa de Elite representa tudo o que abomino no cinema. Não é só a forma criptofascista como aborda as execuções sumárias. Não gosto como temática nem como método de filmagem." O que o leva a outra espécie de reflexão - "Não gostaria de viver num mundo em que os filmes tivessem de ser escolhidos só pelo público. Nem pelos críticos."

 

 

 

 

Especial listaVeja a lista completa da 34ª Mostra

 

 

 

   

Ele esteve no Brasil há mais de 20 anos, participando, como jurado, do Festival do Rio (o antigo). Sua relação com o País é mais antiga (e visceral). Jovem, nos anos 1960, Ciment testemunhou o nascimento do Cinema Novo e acompanhou os grandes nomes do movimento. Ele amou, desde a primeira hora, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Os Fuzis, de Ruy Guerra. Escreveu a apresentação quando a revista Avant-Scène du Cinéma publicou o roteiro de Terra em Transe. Ficou amigo de Cacá Diegues.

Sua trajetória de crítico é indissociável da revista Positif, rival de Cahiers du Cinéma. A outra é mais conhecida. "Não tem nada a ver com qualidade", adverte Ciment. Não que Cahiers não seja importante, mas ele anuncia que vai ser, talvez, méchant (mesquinho?). "Eles amam Cahiers, acima de tudo; nós, em Positif, amamos o cinema." Cahiers sempre submeteu a apreciação dos filmes à teoria. Teve a sua fase católica, a maoista, a lacaniana. Positif não conheceu essas oscilações. É libertária desde as origens, quando os surrealistas (Robert Benayoum, entre outros) integravam a redação.

Qual o melhor filme que Ciment viu recentemente: "Poetry, de Lee Chang-dong." O filme está na Mostra. E o russo Minha Felicidade, de Sergei Loznitsa? "A direção é extraordinária, mas o roteiro..." E Ciment faz cara de quem não gostou muito.

MICHEL CIMENT, A ARTE DE PARTILHAR FILMES

Faap - Hoje, 19h

Cine Livraria Cultura 1 - Sábado, 17h20

Unibanco Arteplex 3 - Segunda, 18h10

Unibanco Arteplex 4 - Quarta, 19h40

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