Filipe Araujo/Estadão
Filipe Araujo/Estadão

Mia Couto lança livro em São Paulo

Em 'A Confissão da Leoa', escritor de Moçambique trata da tortuosa condição feminina

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo,

05 de novembro de 2012 | 02h10

Em 2008, uma vila no Norte de Moçambique ficou assombrada com uma série de ataques de leões. Em poucos meses, foram 26 investidas, das quais apenas uma única vítima masculina. Para resolver o problema, foram enviados para a região dois caçadores experientes, que só conseguiram eliminar as feras depois de semanas de frustração e terror. Na verdade, os moradores locais acreditavam que as mortes não foram provocadas por leões de carne e osso, mas por criaturas de um mundo invisível, onde a espingarda perde sua eficácia.

O escritor e biólogo Mia Couto trabalhava para uma empresa petrolífera na época e acompanhou de perto o drama das mortes violentas, que lhe inspirou um romance, A Confissão da Leoa (Companhia das Letras). Couto está em São Paulo, onde participa nesta segunda-feira, 5, do programa Roda Viva, na TV Cultura, e amanhã lança o livro, sobre o qual falou na seguinte entrevista, por e-mail.

A partir de A Confissão da Leoa, é possível acreditar que a literatura é que está dando conta da complexa realidade?

Mia Couto  - Para mim, sim. Eu senti que precisava de transferir para o domínio da ficção uma experiência realmente vivida. Durante o tempo em que estive em Palma, gente foi morta, foi devorada por leões. O que restava de gente que eu conhecia era pedaços de corpos estraçalhados. A violência desses eventos estava para além daquilo que eu pudesse racionalizar. Acho que escrevi para resolver dentro de mim essa memória. E o único modo era converter em história aquilo que tinha sido realidade. No fundo, eu fazia como os aldeões que mistificavam o acontecimento e acreditavam que não se tratava de verdadeiros leões, mas de entidades mágicas, pessoas que incorporavam os leões assassinos.

Até que ponto a intimidade com a realidade do lugar nor-teou sua narrativa, permitindo-lhe liberdades na narrativa?

Mia Couto  - Creio ter sido o oposto. Eu tive de brigar com essa realidade que era já demasiado irreal. E depois tive de escapar daquilo que eram as narrativas mais óbvias e mais saturadas: as histórias de caçadas, de uma África romantizada e convertida em território de bichos e cenários naturais fantásticos. Ora, eu tinha de contar as histórias das pessoas que viveram aquele drama, e isso por dentro da alma daquela aldeia. Contei uma história que tem pouco a ver com o episódio dos leões. É uma história sobre a condição das mulheres nas zonas rurais.

Qual a explicação para que as vítimas dos leões fossem mulheres em sua grande maioria?

Mia Couto  - Isso tem a ver com a realidade de Moçambique e dos países africanos em geral. São as mulheres que se arriscam, manhã cedo, a ir buscar água ao rio, a coletar lenha nos bosques, a trabalhar nos campos. Nesse período do dia, os leões estão ativos e encontram nas mulheres uma presa fácil. Esses são os motivos conhecidos. Mas o caçador que contratamos para, naquele caso de Palma, matar os leões revelou-me uma outra possível causa. Num grupo de camponeses, é fácil distinguir os homens das mulheres pelo seu porte mais agressivo, ombros altivos e pelo fato de caminharem empunhando um facão. O leão é um felino treinado para identificar os elementos mais frágeis num grupo de potenciais vítimas. É assim que a mulher se torna um alvo preferencial. Essa é a teoria desse meu amigo caçador.

Há, no livro, uma violência incomum em sua literatura, como o estupro sofrido por uma menina. Isso reforça o tema do livro, que é a condição feminina?

Mia Couto  - Essa violência não nasce da ficção. Vem da realidade. A condição da mulher em Moçambique é realmente incrivelmente desfavorecida. Trata-se de sociedades rurais organizadas num patriarcado muitas vezes historicamente recente. O homem se sente inseguro, duplamente ameaçado: pelos deuses familiares e pela modernidade que vai colocar em causa esse modelo de família. Essa insegurança é a raiz da violência. Culpa-se a mulher por aquilo que escapa ao entendimento. Existe, enfim, uma visão mistificada do continente africano em que se generalizou uma ingênua fraternidade à moda de Rousseau. Essa solidariedade para com a mulheres é muito pouco comum. As mais novas não têm direito a escolher, as mais velhas (e, sobretudo, as viúvas) são acusadas de feitiçaria.

Amargura e tédio são os grandes males contemporâneos?

Mia Couto  - O desgosto pede a sua contraparte. Este sentimento de perda e de desorientação será certamente temporário. Vão nascer o gosto, a esperança e novas utopias serão criadas. Faz parte da condição humana criar essas narrativas carregadas de futuro.

Acredito que essa foi a primeira vez que um fenômeno real inspirou tão fortemente sua escrita. Situações extremadas têm esse poder de despertar sentimentos habitualmente adormecidos?

Mia Couto  - Não. O escritor tem um sem-número de caminhos para fazer acender a sua escrita. Neste caso, eu fui, digamos, atropelado pela carga dramática da realidade vivida. Mas isso é uma exceção e nem gosto de fazer confundir a circunstância do livro com o seu conteúdo. Eu podia nunca ter vivido a situação. O que importa é valor literário dessa proposta. O resto não conta.

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