Mi casa és mi casa!

Fábio Porchat

O Estado de S. Paulo

12 Julho 2015 | 02h00

Eu estou apaixonado. Completamente, perdidamente apaixonado pela minha casa. Eu me mudei em outubro do ano passado, mas só agora é que eu posso realmente chamá-la de casa.

Desencaixotei tudo que estava embrulhado em papelão desde a minha separação em 2013, os móveis chegaram, os quadros foram pendurados, as plantas já estão todas em seus lugares, falta uns 15% da casa ainda, mas agora é uma casa. Falta a porta de entrada? Falta. Falta mobiliar o quarto de hóspedes? Falta, mas de resto: uma casa. No caso, é um apartamento, mas eu chamo de casa porque acho mais simbólico. Mas tudo nele me agrada. O cheiro é a principal coisa. A mistura dos móveis novos com os velhos, com as plantas e as flores... Eu gosto de respirar na minha casa. Sabe assim? Ela tem um cheiro só dela que me faz esquecer de tudo e pensar como eu sou feliz ali dentro. O vento que bate o dia todo. (Sou maluco por casa arejada. Odeio lugar fechado. Eu chego em casa e abro todas as janelas.) As cores, o piso, o rodapé. Quando você admira um rodapé, só pode ser amor. 

Os sons da casa me agradam. Meu cuco na parede fazendo um eterno tique-taque, até o cachorro do vizinho de cima que arranha o meu teto me deixa feliz. Uma pena eu não ficar tanto tempo em casa. Estou sempre viajando a trabalho, correndo de um lado para o outro e, mesmo quando eu estou no Rio, eu tô sempre fora. 

Eu acho que alguma coisa dentro de mim resolveu moldar a casa do jeitinho que ela ficou pra me convencer de parar um pouco e ficar mais ali dentro, curtindo, regando minha pitangueira (sim, eu tenho uma pitangueira!!! E assim que ela der frutos eu vou oferecer uma xícara para a vizinha como prática da boa vizinhança), deitado no sofá fazendo nada, só olhando prum quadro na parede, que eu comprei no Chile de um palhaço sozinho na frente de uma roda-gigante. Ele é triste, mas tão alegre, ao mesmo tempo. Federico Infante o nome do pintor, procure no Google, tem outros lindos dele. 

Eu converso com as minhas plantas. Eu dou oi, sempre que eu chego. É meio maluco? É meio maluco, mas são elas que tão cuidando da casa quando eu tô fora. Elas tão lá sempre. Um dia, meu cactos-bola vai atender o interfone e receber o cara da NET, tenho certeza. Na minha varanda, só falta uma rede, que faz parte daqueles 15% que eu comentei. Mas o importante é que, na minha casa, eu me sinto em casa. Sabe isso? Eu me sinto bem de estar lá. De morar. Se eu pudesse, guardava ela no bolso e levava ela pra todo lado. Minha casa me abraça e toda vez que eu entro nela, consigo senti-la dizendo: que bom que você chegou, já estava com saudades. Se isso não é amor, eu não sei mais o que é.

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