Mexicano que gosta de ilusão deve surpreender na Flip

Mario Bellatin ficou famoso por criar situações misteriosas nas quais a verdade torna-se duvidosa

Agência Estado,

30 de junho de 2009 | 10h46

O escritor mexicano Mario Bellatin deve surpreender na Festa Literária internacional de Paraty, a Flip, entre os dias 1º e 5 de julho, no litoral fluminense. Primeiro, pela persona que criou para si - filho de pais peruanos, 49 anos e mais de 15 livros editados, Bellatin gosta de parecer um ilusionista, confundindo realidade e ficção, desde questionar a própria origem (já afirmou, por exemplo, que nasceu no Peru) até criar situações em que a verdade se torna duvidosa (em um congresso em Paris, ele apresentou um jovem como sendo José Agustín Ramírez Gómez, apesar de seus 64 anos).

 

E, segundo, por sua literatura seca, breve, pulverizada em pequenas narrativas como as que formam "Flores" (tradução Josely Vianna Baptista, 80 páginas) lançado agora pela Cosac Naify e já incensado por parceiros como Marcelino Freire e Joca Reiners Terron. São textos fragmentados em que os personagens são vítimas de deformações congênitas - aqui, uma aproximação com a realidade, pois Bellatin nasceu sem o antebraço direito.

 

Sem limitar, a deformidade o incentiva a colocar próteses artísticas, como um gancho ou uma flor metálica na extremidade. E, ao lado do artista plástico Aldo Chaparro, planeja peças ?mais funcionais?, ou seja, com um celular ou um iPod acoplado. Sobre o trabalho, gosta de confundir e não de explicar. Já alardeou, por exemplo, que vai escrever a biografia da Frida Kahlo - não a pintora, mas uma cozinheira que vive na Cidade do México, parecida com a artista. Fã de Chico Buarque, Bellatin rascunhou um conto que vai integrar uma coletânea organizada por Ronaldo Bressane, baseada nas canções do músico.

 

Bellatin é autor de "Salão de beleza" (2000), "Damas chinas" (2006) e "El gran vidrio" (2007), entre outros. Professor de uma escola de escritores no México, ele admite tudo - menos que o candidato a ficcionista inspire-se na própria vida para criar sua história. Um dos mais premiados autores brasileiros dos últimos anos, Cristovão Tezza fez exatamente isso em seu "Filho eterno". O papel da experiência pessoal na literatura é, portanto, a discussão entre os dois autores, dia 3, na Mesa 9, às 17 horas, com mediação de Joca Reiners Terron.

 

Peripécias de Bellatin

 

Mario Bellatin aproveitou um congresso de escritores mexicanos em Paris para aprontar. Diante de acadêmicos europeus ávidos por conhecer os novos nomes da narrativa de seu país, Bellatin surpreendeu ao apresentar Sergio Pitol como uma senhora de vestido, além de apresentar um jovem como sendo José Agustín Ramírez Gómez, apesar de seus 64 anos.

 

A farsa logo foi descoberta: em vez de escritores autênticos, Bellatin apresentara pessoas que conviveram durante seis meses com os autores originais, decorando seus projetos literários e suas opiniões.

 

Convidado pelo jornal argentino La Nación para resenhar o livro Kioto, do japonês Yasunari Kawabata, Bellatin preferiu a anarquia: copiou trechos de críticas publicadas sobre seus próprios livros. Para disfarçar, substituiu seu nome pelo do autor japonês e os de seus livros por Kioto. Publicado, o artigo foi saudado e aclamado como "brilhante", até que o próprio Bellatin revelou a verdade.

 

O caso foi narrado no Moleskine Literário, blog do escritor peruano Iván Thays: segundo ele, na cláusula 16 do contrato com a editora mexicana Almadia, para publicação de La Jornada de la Mona, o escritor mexicano estipulou: "Parte do pagamento ao autor se dará na entrega de um cachorro da raça xoloixcuintle (ameaçada de extinção), puro, pertencente à estirpe de cachorros do pintor Francisco Toledo."

 

Já o desespero tomou conta de uma diretora de teatro, que encenou um texto de Samuel Beckett incentivada por ele. Era, na verdade, do próprio Bellatin.

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