''Meus heróis são todos militantes''

''Meus heróis são todos militantes''

Moby

Entrevista com

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

24 de março de 2010 | 00h00

Cantor, compositor e guitarrista

Não há quem não concorde que Moby se tornou, a partir dos anos 1990, um dos artistas do universo pop mais hábeis em criar ambientes sonoros etéreos e climáticos, paisagens emocionais caracterizadas por grande afinidade com a melancolia.

A bordo de seu novo disco, Wait for Me (2009), Moby desembarca no País em abril para uma grande turnê nacional, trazendo uma banda com seção de cordas e metais. O cantor e guitarrista, nascido Richard Melville Hall, e que descende diretamente de Herman Melville (o autor do clássico literário Moby Dick, daí seu apelido), tem uma bela folha corrida de serviços prestados ao pop: em 1999, com Play, acelerou a fusão entre gospel e eletrônico; em 2002, com 18, fincou pé na ambient music; em 2007, flertou com o rock em Hotel; em 2008, acabou-se na pista de dança com Last Night, big beats para as massas.

Agora, é a vez de voltar aos climões com sangue de soul music. Com canções de clássico romantismo, como Pale Horses, e outras de quase pregação religiosa, como Study War, o disco Wait for Me mostra Moby no auge de sua capacidade de criador de baladas espirituais. O cantor falou ao Estado na segunda.

Você está vindo para tocar em 5 cidades brasileiras desta vez. O fato de você ter estudado teatro ajuda na hora de criar um personagem, uma persona?

Já estive no Brasil cinco vezes, a primeira em 1992 ou 1993, não tenho certeza. Conheci Curitiba, Porto Alegre. A novidade é que desta vez vou a Brasília, que não conheço, mas que tinha grande vontade de conhecer porque é uma obra-prima do arquiteto Oscar Niemeyer, de quem sou grande fã. A imagem de Yoko Ono (que disse que Brasília parece uma cidade que parece deixada ali no meio do nada por um disco voador) soa perfeita para mim, é a mesma impressão que tenho.

Você disse que foi uma frase do diretor David Lynch, que defendia a invenção como uma beleza em si, que norteou todo o seu novo disco, Wait for Me. Pode falar um pouco sobre esta inspiração do Lynch?

No curso de minha carreira, eu fiz todo tipo de música. Fiz música clássica, hip-hop, house music, fui punk. Não esperava ter sucesso, e nem mesmo esperava ter uma carreira fazendo música. Tudo que queria era fazer algo o mais popular possível, algo que pudesse me manter em contato direto com uma hipotética plateia. Não gosto de música comercial, meu trabalho é fazer tudo com integridade e algum senso de beleza. Não é feito com a intenção de tocar no rádio. Então, quando Lynch disse aquilo, ele me remeteu ao meu instinto mais básico, e isso foi uma espécie de força no disco.

Um jornalista do Guardian, um tal de Simpson, disse outro dia que seu disco soava como o trabalho de alguém que parecia ter acabado de sair de uma festa selvagem, e que agora procurasse por redenção e luz. Concorda?

Felizmente, minha música é sempre a expressão das minhas melhores intenções, e é isso que tento colocar no palco. É diferente, às vezes, fazer música com o apelo de um estádio e fazê-la para tocar num pequeno teatro. Mas eu sou sempre o mesmo cara, e quando estou tocando sempre me parece que estou tocando numa festa em que servem coquetéis. Meu objetivo, falando de um jeito simples, é fazer as pessoas felizes. Nunca subo ao palco para impressionar, para fingir que sou algo que não sou. Estou ali para melhorar a noite das pessoas.

Você também sempre expressa abertamente suas opiniões políticas e sua militância vegetariana. Como lida com a necessidade de transmitir suas opiniões de ativista por meio da música?

Grande parte dos meus heróis na música eram pessoas que grande militância política, como Joe Strummer, Neil Young, Chuck D. Faço da música uma forma de expressão pessoal, e certamente minhas crenças e meu ativismo transparecem por meio dela, mas não é uma intenção deliberada.

De qualquer modo, nesse novo disco você soa mais contemplativo e mais afirmativo. Considera o álbum uma mudança também filosófica no seu jeito de ver o mundo?

É uma grande mudança. Meu diagnóstico é que nós vivemos num mundo e numa cultura em que prevalece a seguinte visão: se tivermos bastante dinheiro, muitas namoradas e muita fama, estaremos felizes. O materialismo é OK, cada um vê o mundo do seu jeito, mas o materialismo não providencia felicidade. É um equívoco. Em vez de olhar sempre para as coisas externas, para as aparências, temos de começar a olhar mais dentro de nós mesmos. Eu sou apenas um músico tentando despertar esse interesse pelo que cada um tem de melhor em si. Nesse sentido, considero o disco uma mudança, porque ele atenta para essa preocupação. O mundo está muito individualista e egoísta.

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