Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Meus garranchos

Há um mundo novo pós-escrita formal sobre papel. Desaparecem os de letra feia ou bonita e emergem os que digitam rápido ou devagar.

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

27 de março de 2019 | 02h00

Sempre tive letra feia. Pior do que apenas feia: infantil, irregular, estranha. Quem lê um manuscrito meu imagina que o autor seja alguém mal ou recém-alfabetizado. Meu pai tinha uma letra regular, bonita, porém de difícil decifração. Minha irmã tem letra professoral redonda. Sou a pior letra da família. Fiz caligrafia e me esforcei bastante. Inútil. Agora que escrevo pouco à mão, minha letra é quase dadaísta. 

Por inveja, ressentimento ou genuína admiração, observo pessoas escrevendo com leveza e estética apuradas. Admiro a profissão de calígrafo. Comprei canetas sofisticadas da caligrafia profissional. Ao final, descobri que agora meus garranchos eram mais caros e com instrumentos avançados. Tenho de me conformar: a vida inclui setores não realizados, frustrações e feridas narcísicas. 

Quando organizei uma exposição sobre o registro das coisas (A Escrita da Memória), analisei os exercícios de caligrafia de D. Pedro II. Na década de 1830 ele copiava “máximas”, frases de escopo moral e de sentido educativo. Há muitos exercícios do jovem herdeiro nos arquivos brasileiros. Depois, transcrevi muitas cartas do monarca já adulto. Aparentemente, a letra imperial nada melhorou com o esforço caligráfico. Pensei comigo: mais um que tentou e não conseguiu...

A letra é um traço de personalidade. Como já disse, estamos escrevendo menos na forma clássica da caneta sobre o papel. Minha assinatura, que nunca foi um projeto arquitetônico de harmonia plena, vive decadência. Tenho extrema dificuldade em reproduzir o modelo que está arquivado no meu banco. Sou um estelionatário de mim mesmo, uma fraude pessoal que tenta imitar cada curva irregular das próprias garatujas. A motricidade fina da escrita é uma fase que devo ter superado sem ter dominado. 

Como todo historiador, frequentei muitos arquivos. A paleografia é a arte de decifrar escritas antigas. Se eu der uma carta do século 16 para uma pessoa sem o treino paleográfico, ela terá a sensação de absoluto analfabetismo, mesmo que seja alguém de formação intelectual sofisticada. A carta de Caminha, por exemplo, que tive oportunidade de examinar bem de perto, parece escrita na bela caligrafia árabe, pois tem uma lógica de arabescos harmoniosos. 

No Arquivo Geral da Nação no México, analisei processos inquisitoriais quando fazia a pesquisa do doutorado. Lia aquelas letras desenhadas com penas e ficava imaginando a personalidade. Percebia que a mudança de letra em um processo longo também afetava a própria descrição do pecador ou da heresia em questão. Sorria supondo um texto sobre o “secretário na História”, a influência daquele que anota sobre o fato. 

Conheci alunos de ensino fundamental no primeiro mundo que não usam mais a alfabetização com papel. O domínio das letras e das sílabas já ocorre direto no computador. Fico imaginando que será uma nova percepção da escrita e, quiçá, um novo tipo de sinapse cerebral. 

Será que um dia a yad, a mão de metal com que o jovem judeu lê a Torá e faz sua entrada na comunidade, será um cursor de tela? Haverá um novo ditado: Deus digita certo por arquivos danificados? Que a bela saudação judaica de ano-novo: “Que você esteja inscrito no livro da vida” virará “que você tenha seu file salvo até o ano que vem”? Que a correta tradução da expressão árabe “estava escrito (maktub)” virará “estava salvo direto no hardware”? O autor do Apocalipse teve de comer um livro que era doce na boca e amargo no estômago (Apocalipse 10:10). E se fosse um tablet? E se o novo enredo do Nome da Rosa de Umberto Eco envolvesse um computador que soltasse radiação em vez de livros envenenados? E se o Salmo 23 “O senhor é meu Pastor, nada me faltará” virasse “O Senhor é meu provedor de banda larga, ela nunca cairá!”. 

Há um mundo novo pós-escrita formal sobre papel. Desaparecem os de letra feia ou bonita e emergem os que digitam rápido ou devagar. Beleza cede lugar à destreza. A minha dor da letra feia será um fóssil estranho no mundo da computação. Novas dores surgirão. Em vez de murmurarem “ele tem letra horrível”, dirão “ele digita lentamente”. Pior, sussurrarão vozes maliciosas, “ele usa emojis equivocados”. 

Não há mais romances epistolares ou longas notícias escritas à mão. Caligrafia está reduzida a nichos muito específicos. O “calo de estudante”, protuberância no dedo fruto da pressão contínua da caneta deu lugar à tendinite. Como sempre, a nostalgia de alguns será curada pela morte. Quando houver desaparecido a última pessoa que ainda tem noção do que é um mata-borrão, terá se encerrado uma era, como foi a das tábuas de cera romanas e dos cálamos, do papiro egípcio ou do pergaminho da Ásia Menor. O mundo não terminou, apenas mudou. Meu epitáfio não registrará minha dor. E, para sorte de algum futuro turista de cemitério, está lapidado na pedra e não escrito à mão. Ou haverá uma tela interativa no meu túmulo com código QR “escaneável”. Quem sabe? É preciso ter esperança. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.