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Humberto Werneck
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Meus dois dígitos

Você pode não acreditar, mas já tive 10 anos de idade. Admito que foi há muitíssimo tempo, nas entranhas do século passado, e as melhores testemunhas, meu pai e minha mãe, já não estão aqui para confirmar a autenticidade do que diz o filho meio dado à ficção. Mas aconteceu, e estou em condições de afirmar que meu primeiro decênio de vida foi completado num 10 de fevereiro. Posso até precisar: numa quinta-feira.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2014 | 02h06

Festa não houve - nunca havia: quem deu o azar de nascer durante as férias de verão, que iam do começo de dezembro ao final de fevereiro, dificilmente conseguia quórum para soprar as velas. Primos e amigos estavam viajando, e coleguinhas não havia, pois o ano letivo ainda não tinha começado.

Naquela quinta-feira, porém, orgulhoso dos dois dígitos que estreava (e que jamais vou superar), fiz questão de algo além do dinheirinho que me davam a título de consolação. Estávamos passando uma temporada na fazenda, e quando papai e mamãe vieram com o envelopinho, pedi também: queria ver meu primeiro filme "impróprio para menores de 10 anos".

E assim foi. O dr. Hugo e a d. Wanda se abalaram até a cidade em nosso Chevrolet 1939, carregando o aniversariante, o qual fez questão, ainda, de que antes do cinema houvesse almoço no Hotel Normandy, cuja varanda, debruçada sobre a avenida Afonso Pena, lhe parecia o máximo em matéria de chicura em Belo Horizonte.

O pacote teria de incluir, é claro, camarões com salada de maionese, essa temerária combinação que Brasil afora volta e meia remete ao pronto-socorro todos os participantes de uma festa de casamento. Se você também nasceu a centenas de quilômetros do litoral, há de compreender a obsessão dos mineiros por esse tipo de crustáceo. Em nenhum outro rincão do território nacional, suponho eu, se encontram camarões tão grandes quanto os que, congelados, viajam até Belo Horizonte.

Do Normandy meu pai seguiu para o consultório, e com mamãe subi rumo ao cine Tamoio - um dos 20 e tantos que havia na cidade, naquele tempo em que todos os cinemas eram "de rua" e não de shopping, instituição ainda - para o bem e para o mal - inexistente. Diferentemente dos horários quebrados de hoje, que às vezes nos fazem perder o filme, as sessões eram sempre às 14, 16, 18, 20 e 22 horas.

No finado Tamoio, que terá talvez cumprido a sina dos cinemas de rua, aviltando-se em igreja ou estacionamento, o filme em cartaz era A sombra da noite, cujos atrativos incluíam ter sido realizado em CinemaScope, assim, com S maiúsculo no meio da palavra, revolucionário sistema de filmagem e projeção estreado dois anos antes. Pílula de cultura: o primeiro lançamento em CinemaScope foi O Manto Sagrado, com Richard Burton, em 1953.

Não vou mentir para você, dizendo que me lembro do filme, de uma cena sequer, ou mesmo do título, e menos ainda que era estrelado por Gregory Peck, pois a emoção de ter finalmente alcançado os meus 10 anos toldava tudo o mais. Se bem me conheço (desconfio que não), devo ter passado a sessão a circunvagar olhos fiscais pela plateia, a me certificar de que todos ali tinham a idade mínima exigida para ver A Sombra da Noite.

Se posso escrever aqui, sem chance de erro, o título do filme, é porque acabo de consultar a edição de 10 de fevereiro de 1955 do Estado de Minas, que, com suas 16 páginas, vinha a ser o maior jornal mineiro. De quebra, soube que naquele dia, no Rio de Janeiro, o Partido Social Democrático escolhia como candidato à presidência da República, nas eleições de 3 de outubro, o governador de Minas, Juscelino Kubitschek, e que Dercy Gonçalves, a nossos olhos a devassidão em pessoa, estava no palco do Francisco Nunes com Uma Certa Viúva, certamente história de alguma sirigaita.

Ao mergulhar no mar de ácaros da quase sessentenária edição do Estado de Minas, verifiquei também que naquele 10 de fevereiro havia uma fartura de filmes para mim ainda inacessíveis, entre eles O Salário do Medo (14 anos) e Cidade Tenebrosa (18). Se fosse barrado, meu desconsolo só não seria maior do que esse que hoje experimento, agora que me dão passagem em qualquer catraca; é duro admitir, mas faz tempo que ninguém questiona minha presença na fila do pessoal que algum desinformado resolveu chamar de "melhor idade".

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