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Arnaldo Jabor
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Meu último desejo

Graças a Deus, usei esse tempo para ajudar a acabar com o pesadelo americano

Arnaldo Jabor, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2016 | 02h00

“Sim, senhores, eu vou contar tudo que aconteceu e que me levou a estar aqui depondo no FBI. Sim, vou chegar ao meu crime, mas antes devo dizer a vocês, senhores policiais, que tudo começou quando surgiram dores insuportáveis nos meus ossos. Fiz todos os procedimentos clínicos e voltei para saber do resultado. 

O médico conferia meus exames e eu não gostei de sua cara. Ele visivelmente tentava um sorriso calmo e ganhava tempo para me dar o diagnóstico. Eu olhava seu consultório, esperando: um elefante de prata na mesinha, órgãos embalsamados em vidros numa estante: um rim, pedaços de músculos, ossos e, estranha coisa, num canto da sala pendurado do teto, um grande mamulengo, um boneco nordestino, pendurado como um cristo enforcado. Finalmente, o médico me olhou. Ele estava com medo ao me dizer que exames não eram bons e meu deu a sentença: ‘Creio que não vale a pena operar, pois... (surgiu a verdade como uma facada) houve metástase da coluna para as vértebras, indo até o fígado, de modo que...’.

– O quê?... perguntei com uma gota de esperança.

– Ao senhor só resta esperar e... aproveitar a família e amigos, a vida que ainda tem.

– Não tenho mais família. 

O médico sorriu amargamente. 

– Realize seus desejos...

– Quanto tempo? – perguntei. 

– Difícil dizer; três, quatro meses...

A janela estava roxa do crepúsculo. 

Quando eu saí pela rua, pensava – que desejos? Eu ainda não sabia, Mr. Officer. Eu sofria como um cão, mas apossou-se de mim uma estranha calmaria, um sossego com a perda da esperança. Finalmente, eu tinha um destino traçado. Eu carregava a tragédia pelas ruas como um segredo valioso – ninguém sabia de si, a não ser eu. 

Entrei em casa e não olhei o espelho, com medo de não ser refletido. Minha casa só tinha móveis, não tinha ninguém. Nem o cachorro que desisti de comprar, achando-me ridículo com um lulu da Pomerânia assistindo ao meu declínio. 

Ocorreu-me, antes de tudo, o sexo. Mergulhei em puteiros sofisticados, onde colhia flores num jardim de mulheres. Em pouco tempo, cansei de ver as meninas com medo de meus gritos no orgasmo, como uma dor lancinante. Drogas, sim; tomei sim, Mr. Officer, elas matam aos poucos, mas e daí? Nada de pó vagabundo, eu tinha posses, graças a Deus, e podia comprar cocaína de Santa Cruz de La Sierra, pó em que o baque durava horas de euforia doida, seguida sempre de depressões devastadoras, lágrimas e vômitos. 

Meu desejo qual é?, pensava, andando pelas ruas imundas do Rio falido: obesos se arrastando, meninos jogando bolinha nos sinais, travestis sem fregueses com a maquiagem escorrendo, uma puta leprosa dançando na rua. Finalmente, tive a certeza: vou embora dessa merda de País. Vou curtir lá fora. Primeira classe. Graças a Deus, dinheiro eu tinha. 

Nova York sempre me deu a sensação de felicidade vitoriosa. Mas, agora, pairava sobre a cidade uma névoa invisível, como uma grande depressão sobre os arranha-céus. Rostos baixos, discussões ríspidas sem motivo, o taxista paquistanês queria me dar porrada, os museus estavam vazios e mesmo obras de grande arte me pareciam inúteis agora: para quê? 

Andava pelas avenidas, vendo rostos sofridos, pensando na minha morte cada vez mais próxima. Minhas dores amainaram, através de mil gotas de morfina que, soube, já consolava sofrimentos desde o tempo dos faraós. Imaginei-me um faraó sem dor no alto do Empire State, de onde olhei a cidade triste. Quem sou eu, faraó inútil, que nunca fez nada pela pátria ou raça? Não era possível minha vida passar em brancas nuvens. 

Mas como encontrar felicidade nos parcos dias que me restam? As torres gêmeas já não existiam. Osama deve ter morrido com orgulho pelo seu horrendo crime. Alguma coisa relevante eu tinha de fazer. Como ele.

Na loja de armas, vi o belíssimo rifle de assalto F2000, construído pela FN Herstal na Bélgica, municiado com calibre 5.56x45mm. Como são belas as armas mortais! Depois de comprá-la, sob o olhar suspeitoso do vendedor, me senti poderoso e até com uma ponta de esperança. A esperança é a última que morre, diziam, mas no meu caso era a primeira. Ha, ha... Desculpe-me, Mr. Officer, mas esses detalhes são para que todos entendam a importância do meu gesto. 

Alguma coisa tinha se perdido em NY. Os negros passavam por mim e voltaram a ter aquela palidez antiga, quando humilhados nos anos 60. Jovens passavam sem rir. Mulheres nervosas apressavam-se com olhos temerosos. Imenso aumento de ‘sem-teto’ no metrô. Era Natal, mas até a famosa árvore do Rockefeller Center estava quase apagada, com ramos descaídos. 

O Hotel Waldorf Astoria, inaugurado em 1931, abrigava os participantes de uma ‘cúpula’, para tentar alguma solução para o trágico Ocidente agora desorientado. A humanidade vivia em suspense, sob delírios irracionais, totalitários. Grandes perigos rondavam depois das últimas eleições americanas. Até guerra nuclear voltou a ser possível. 

Eu estava em frente ao hotel, bem-vestido, maquiado para esconder a doença, com uma aparência impecável, mascarando minha lenta agonia. 

Foi então que tudo começou a acontecer, Mr. Officer. Surgiu na porta art déco do hotel a grande comitiva que eu esperava, imóvel na calçada. 

Os líderes mundiais saíam, sorridentes, como se o mundo fosse uma primavera. Eu tinha parado com a morfina, pois queria sentir a dor do meu desejo. Trêmulo de sofrimento, meu rifle F2000 começou a atirar. 

Minha dor era mesclada a um certo triunfo, ao ver o monte de seguranças tentando salvar o corpo que caíra, trespassado por minhas balas calibre 5.56. E vós, police officers, podem me matar, cadeira elétrica, forca, o que quiserem. Dane-se; eu só tenho um mês de vida mesmo. 

Mas, graças a Deus, usei esse tempo para ajudar a acabar com o pesadelo americano. 

Antes de vocês me prenderem, a última imagem que vi foram cabelos alaranjados, junto à sarjeta, cabelos de um corpo enorme, como um grande urso feroz ou um imenso periquito ensanguentado. Vou morrer, tudo bem, mas ajudei a salvar a humanidade.” 

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