Meu remédio é cantar

Mais que sua carreira, Luiz queria era projetar o Nordeste

DOMINIQUE DREYFUS , ESPECIAL PARA O ESTADO, DOMINIQUE DREYFUS É AUTORA DA BIOGRAFIA VIDA DE VIAJANTE: A SAGA DE LUIZ GONZAGA, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2012 | 02h09

Na França, onde moro, Luiz Gonzaga nunca chegou a ser conhecido. Sua morte em 1989 passou despercebida e hoje não se comenta seu centenário. Num tal silêncio, me dou ao luxo de achar que Seu Luiz continua vivo. "Ô francesa, você pode me chamar de Tio Lua." Mas eu nunca consegui. Para mim, era Seu Luiz mesmo, um homem jocoso, cheio de graça, mas sempre com elegância. Lembrando o dia em que calçou sapato pela primeira vez, ele comentava: "Ah! Eu me senti um lorde." É era, ainda que desse broncas homéricas e irracionais a torto e à direita. Nem sempre o Rei do Baião era justo. Me obrigo a não esquecer esse aspecto de sua personalidade, mas prefiro lembrar dos ecos de sua voz pela casa quando ria ou cantava. A Veraneio, dirigida por Seu Maia (Deus me livre de andar num carro dirigido por Luiz Gonzaga, rei do baião e dos acidentes rodoviários), lhe inspirava - ou não seria a paisagem da caatinga? - aboios nostálgicos.

O aboio é sempre nostálgico. Luiz Gonzaga também era nostálgico. Habitado por uma infinita tristeza, por um sentimento de solidão. Talvez fosse índole. Talvez os acasos da vida lhe arquitetassem sofrimentos. A fama suscita inveja. Gonzaga sofreu da inveja dos outros até o fim da vida. Porém, antes do sucesso, houve a infância de menino negro e pobre num mundo dominado por brancos ricos. Luiz Gonzaga é um dos grandes ícones do Brasil, mas ao acompanhá-lo em Exu, percebi quanto, frente aos poderosos, ele não conseguia se desfazer por completo da atitude do filho de morador que fora quando criança. Criança educada para ser submissa.

Com 17 anos, se alistou. Passou dez no Exército, dez obedecendo cegamente. Por ele, teria sido soldado a vida toda: "Eu sempre gostei de disciplina, de autoridade". Santana, sua mãe, era fera na questão da disciplina e da autoridade. Já o pai, Januário, era mais sonhador. Tocava o pé de bode ou oito baixos, (enfim, aquilo que na cidade chamam de sanfona) nos forrós do sertão.

Luiz Gonzaga gostava de autoridade, mas na hora de se tornar gente, puxou ao pai. Começou a namorar a sanfona antes de usar calça. E quando a música se tornou o eixo da vida dele, sua maior felicidade foi andar pelo País dando shows. Não aqueles astronômicos, com enxurradas de luz, de som, de efeitos técnicos, de ingressos vendidos. Apenas um espaço onde pousar com o trio com que definira a música nordestina - sanfona, triângulo, zabumba - para quem quisesse escutar, dançar, se divertir. Gonzaga era imensamente generoso e nada organizado. Gostava de disciplina, mas era sumamente indisciplinado. Vai entender o homem, verdadeiro amontoado de contradições.

Por isso passou tanto tempo sem conseguir se entender com Gonzaguinha. O filho, militando contra a ditadura, perseguido pelo Dops, submetido à incessante censura; o pai defendendo a ditadura, negando a tortura, amigão dos militares. Semianalfabeto, Gonzaga respeitava o poder e admirava o saber, convencido de que se alguém chega a esse nível de responsabilidade, é porque tem algum valor. Não era uma questão de ideologia. Gonzaga não tinha ideologia, tinha candura.

Nem por isso vamos desculpar-lhe a indulgência para com a ditadura. Mas vale lembrar o repertório e a ação dele. Gonzaga, apontando logo na primeira parceria com Humberto Teixeira, Asa Branca, o problema da seca e da miséria. E mais tarde, com Zé Dantas, retratando o Nordeste ignorado pelo resto do País, denunciando injustiças, pedindo pelo povo. Não foram os parceiros letrados que levaram Gonzaga nesse caminho, foi Gonzaga que procurou parceiros capazes de acompanhá-lo pelo caminho que ele imaginara. Com seu olhar aguçado sobre a vida, era um visionário: entrou na vida artística com um objetivo.

Em geral, o objetivo do artista é se projetar. O de Luiz Gonzaga era projetar o Nordeste. Foi o que ele fez. Ajudou o Nordeste a ser conhecido e a música nordestina a desabrochar. E quem tivesse talento - Luiz Gonzaga sabia discernir quem - podia contar com seu apoio. "Acho que dei umas 200 sanfonas a jovens iniciantes." Deu também conselhos, ensino, chance de subir no palco, casa e comida.

Contudo, o mestre sempre deixou bem claro que não tinha inventado nada: a música nordestina já existia antes dele. "Eu apenas dei uma vestimenta." Figurinista de alto nível! Que levou a matutinha acanhada do sertão para desfilar nos palanques das cidades grandes… E abriu espaço para que, depois dele, outros costureiros a vestissem também.

Será que haveria Dominguinhos, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Fagner, Tom Zé, Geraldo Vandré, Chico Science, Lenine, Silvério Pessoa e Siba sem Luiz Gonzaga? Claro que sim, haveria, mas talvez não fossem exatamente como são.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.