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Meu regime semiaberto

Então era isso o tal "feliz ano novo" que me haviam desejado? - pensei eu, poço de amargura e raiva, às 5 e tanto da manhã e a quilômetros de minha cama quentinha, encharcado por uma chuvarada de verão e espremido na fila de um relógio de ponto. O que fazia eu ali, com meus 15 anos, entre aqueles marmanjos fedendo a cigarro?

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2014 | 02h07

Minutos antes, ainda fantasiava: para pagar os crimes de mau estudante, ia trabalhar numa fábrica; tudo bem: eu me via, em horário comercial, a transportar papéis entre as mesas de um escritório refrigerado, ou, humilhação máxima que a soberba de adolescente classe média podia imaginar, servindo café ao chefe. Ah, ia derrubar o bule quente no colo do homem, ele ia ver!

Mas não: um papelzinho datilografado, que mais de meio século depois ainda conservo, informava à portaria da Companhia Renascença Industrial que estava "o Sr." (a primeira vez que me trataram assim) fulano "autorizado a ingressar no recinto da fábrica, devendo trabalhar na Sala de Panos" - a qual resultava ser um galpão entupido de ruidosas máquinas de tingir tecido.

Ao longo de intermináveis semanas, eu passaria ali - em pé! - 8 horas e meia de segunda a sexta, com 30 minutos para almoço, e, sem pausa, outras 6 aos sábados. Nesse meio tempo, Jânio tomou posse em Brasília e John Kennedy em Washington, e eu, mais modestamente, fiz 16 anos achando (acho ainda) o máximo as crônicas de Paulo Mendes Campos em O Cego de Ipanema e de Rubem Braga em Ai de ti, Copacabana!, lançamentos fresquinhos da Editora do Autor.

Ao cabo do primeiro mês, entrei na fila para receber as notas e moedas de meu "salário de menor", 4.000 cruzeiros que imediatamente esmerilhei na compra de uma calça, uma camisa, dois discos de Juca Chaves e - fala, Inconsciente! - duas caixas de munição para carabina 22.

Meu pai, que concebera o castigo, logo se deu conta de que errara a mão. Na minha vista, dias antes, tinha pedido a um amigo industrial "um trabalho bem duro para um vagabundo que não quer saber de estudar" - e o camarada tomou a frase ao pé da letra. Por maior que fosse a sua rigidez de macho à antiga, que o tempo e os 10 filhos se encarregariam de amaciar, meu velho (41 anos de idade) por certo não imaginara a aspereza do regime semiaberto a que me condenara. Em plenas férias, acordar às 5 da matina, engolir alguma coisa e sair correndo, muitas vezes debaixo de toró, rumo aos dois ônibus que me depositariam na tristeza proletária do bairro da Renascença.

Não tardei a perceber que meu pai se arrependera, e que minha mãe, em silêncio, não se conformava com a severidade da punição. Entre os dois, talvez o pau quebrasse, e tratei de botar mais algum na fogueira: "Lá vai o operário para a fábrica!" - bradava à porta do quarto deles, ao sair.

Umbigo colado à bancada, minhas funções de tecelão consistiam em passar a ferro retalhos de tecido para com eles fazer livros de amostras. Insuportável ironia: o frangote com fumaças literárias a produzir livros de pano, nos quais o único texto (a mesma raiz de "têxtil", aprendi), no canto superior direito, era uma inscrição dourada, impressa a ferro quente: "Renascença. Cores firmes". E não tinha ao menos com quem desabafar - cadê peito para revelar aos comparsas do basquete, da farra e da literatura que agora o amigo deles passava os dias de ferro em punho?

Revoltado, na terceira semana decidi matar trabalho aos sábados. À hora de sempre, descia para o Centro deserto e lá ficava zanzando (cheguei a assistir a três missas consecutivas na igreja de São José) até ser hora de subir para o Minas Tênis. "Você está queimado", estranhou mamãe já na primeira vez. "Hoje trabalhamos no pátio", informei, lacônico, e ela fingiu que acreditava.

Meu calvário se estendeu até o fim de fevereiro, quando o Rodrigo, que tinha ido a segunda época, também acabou reprovado - e meu pai, agarrando o pretexto da isonomia, pôs termo à minha vida de tecelão. Ainda que breve, e menos prestigiosa que a de um metalúrgico, a experiência poderia ter servido para calçar uma carreira política. Tarde demais. Que sirva ao menos para socorrer um cronista à míngua de assunto.

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