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Lúcia Guimarães
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Meu programa de governo

NOVA YORK - Em novembro, Nova York vai eleger um novo prefeito, depois de 12 anos da Dinastia Bloomberg, e as chances de um bilionário inaugurar um novo regime são parcas. Dos 11 candidatos que se apresentaram, só um tem fortuna de dez dígitos, mas o dono da maior rede de supermercados da cidade, John Catsimatidis, sofre de um déficit de, digamos assim, telegenia. Não que o governo da cidade tenha sido ocupado por gatões ao longo da história, mas o candidato republicano ainda teve a desafortunada ideia de se apelidar de Cats. Entre a ironia do apelido e o fato de que a experiência de entrar no supermercado de Cats é mais uma tunga do que uma compra, acho que a candidatura dele vai continuar no frigorífico eleitoral.

LÚCIA GUIMARÃES, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2013 | 02h05

Não me candidatei mas posso dar palpite. Afinal a minha espécie, a dos nova-iorquinos adotados, é conhecida, não pela plumagem, mas pela loquacidade de opiniões. E por saber reclamar.

Aqui, aperfeiçoamos a indignação como ciência. A ponto de amigos de regiões mais gentis e malemolentes, depois de me ouvir ao telefone vituperando contra uma operadora de celular ou uma companhia aérea, sugerirem que eu posso fundar o Rent-A-Rage, um negócio de sublocação da minha raiva para consumidores menos eloquentes.

Seja quem for o próximo mandachuva deste burgo, Christine Quinn, a primeira mulher e lésbica, ou Anthony Weiner o primeiro ex-deputado que tuitou a foto do próprio pênis para 45 mil constituintes, aqui vai a minha contribuição não solicitada.

1 - Reserva de classe média.

Assim como o reservatório de água precisa ser mantido a um certo nível, é preciso combater a seca de habitantes de classe média na cidade. Sim, só o protecionismo descarado pode impedir que uma minoria, com suas fortunas habitualmente adquiridas na parasitagem financeira, ocupem todas as vagas de boas escolas públicas e os apartamentos de dois quartos disponíveis. Já morei em quatro bairros da cidade e acabo expulsa pela obscena valorização imobiliária. Se o regime Bloomberg foi capaz de banir a venda de refrigerantes em copos do tamanho de baldes, porque não banir a concentração de mais de cinco operadores de hedge funds no mesmo quarteirão?

2 - Revista policial de brancos em bairros afluentes.

Este programa modelo pode servir para outras cidades onde a polícia pune moradores de pele escura que insistem em sair de casa. O chamado stop and frisk é a tática usada contra uma esmagadora maioria de minorias, como sabem os mais de 400 mil negros e latinos inocentes que foram parados e revistados por meganhas, em 2012, pelo crime de caminhar em parques ou conversar nas calçadas. Meu plano é simples: colocar vários caros de patrulha na Park Avenue. Quando um homem branco de terno Gucci pisar na calçada, antes que tenha chance de entrar no BMW com motorista, ele deve receber ordem de colocar as mãos para cima e virar contra a parede, enquanto os agentes da lei esvaziam seus bolsos da carteira Gucci e do chaveiro Vuitton. Quando uma mulher loura saltar da limusine e tiver a velocidade do passo limitada pela altura do salto do Manolo Blahnik, ela terá que tirar o paletó do terno Dolce & Gabbana, enquanto é apalpada da cabeça aos pés. O objetivo desta tática é puramente didático. Vai ensinar aos que têm poder e influência sobre o prefeito como é a rotina de temor enfrentada por tantas mães quando seus maridos e filhos saem de casa para trabalhar ou estudar.

3 - Ecologia sonora

Nova York vai sendo reduzida a um parque temático, com recordes anuais de turismo e a poluição sonora é uma ameaça à saúde pública. Turista fala alto. Jovem banqueiro de Wall Street também. Está difícil até pensar em público porque os ouvidos são invadidos pelos berros de conversas ao celular. A solução: instalar medidores de decibéis em locais como saguões de edifícios e restaurantes. Quando a agulha passar de 80, o aparelho emite um ruído insuportável de alta frequência. Assim, por intimidação e condicionamento, a população há de aprender a falar baixo.

4 - Tatuagens

Estabelecer uma Bolsa-Família para remoção de tatuagens com laser. À medida que os tatuados do milênio anterior envelhecem, é evidente o remorso, como está provado pela explosão de clínicas de remoção de âncoras, rosas, corações flechados e escudos da Harley Davidson. Numa segunda fase do programa, tornar a tatuagem ilegal.

5 - PIF (Programa de Proteção da Inteligência Futura)

Não falo de gênio. Falo de raciocínio básico e bom senso. Já que a lei do Estado de Nova York garante às crianças o direito de cursar 12 anos de primeiro e segundo grau, proponho que a estupidez adulta inspirada por ideologia ou religião seja punida. O pai que disser aos filhos que o planeta nasceu há cinco mil anos, deve ser obrigado a ler A Origem das Espécies e aprender a soletrar darwiniano. A mãe que colocar sua filha diante da TV quando o reality show de Kim Kardashian estiver no ar, deve ser condenada a usar um saco de batatas como vestido durante seis meses.

Minha plataforma pode não ser democrática, mas vivo na metrópole conhecida pela ditadura do individualismo. E, sem passaporte americano, não corro o risco de me eleger.

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