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Meu primeiro escritor

O primeiro escritor a gente não esquece – e o meu ficou sendo o poeta Abgar Renault, integrante da patota que, sob o comando de Carlos Drummond de Andrade, inventou o Modernismo em Minas Gerais.

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2015 | 02h00

Foi por acaso que, muito novo, o conheci: o pai dele, professor Leon Renault, morava na minha rua, a Padre Severino, e me lembro de tê-lo visto algumas vezes por ali. O que mais me impressionava não era o fato de ser poeta, mas a constatação de que, caindo de velho, ainda tivesse pai. O meu não perdera o dele aos 16 anos?

Abgar Renault, faço agora as contas, andava pelos 50 e poucos – uma enormidade aos olhos de quem mal chegara aos 10. Não me parecia mais jovem que o professor Leon, que em segundas núpcias tivera mais uma ninhada de filhos. (Um dia, com meu pai no ônibus, calhou de o vizinho sentar-se ao nosso lado. “O senhor está em grande forma”, disse papai – e aí o professor, meio surdo, mas não ao ponto de perder um elogio, segredou bem alto no ouvido dele, com voz maliciosa e inequívoco gesto obsceno: “Pois é, Dr. Hugo, nesta idade – e toda noite, ó”!)

Menino, descia eu a Padre Severino com a tia Nathalia quando encontramos Abgar, de quem ela tinha sido aluna. Não lembro nada da conversa, a não ser uma intrigante declaração do mestre, proferida em tom judicioso: “Saco vazio não para em pé!” Quem me conhece sabe que tratei de decifrar a frase, para usá-la, e usei, na primeira oportunidade. 

Aos poucos fui compondo a figura de Abgar Renault, espécime talvez único de modernista que ignorou reformas ortográficas, e até a morte, em 1995, foi fiel ao ípsilon, ao ph e outras antiqualhas que cravejam seus versos recobertos de sépia simbolista. Nas dedicatórias, “offerecia” livros, e numa delas me tratou de “illustre”, adjetivo a que, na minha notável modéstia, jamais fiz jus, nem mesmo com um L só.

Deslumbrado, vim a saber que Abgar Renault era também brilhante tradutor, sobretudo do inglês, idioma em que se tornou capaz de ir e vir, pois além de traduzir vertia poesia brasileira. Não foi por acaso que Drummond o enfiou nas crônicas em que narra a visita que fez a Minas, incógnita, a atriz Greta Garbo, num momento de 1929 em que se fartou das chatices do estrelato. Não vou contar a história; se você não leu, trate de correr ao delicioso par de crônicas que abre a coletânea Fala, Amendoeira.

Além de amigo de Drummond, Abgar Renault tinha para mim o charme adicional de ser casado com uma filha de Alice Brant, a escritora de um só jato que, aos 62 anos, sob o pseudônimo Helena Morley, assombrou as letras nacionais com o clássico Minha Vida de Menina. O genro jamais alcançaria um milésimo da notoriedade de que desfrutou a sogra. Ainda hoje, poucos são os que conhecem sua poesia fina, destilada numa dezena de livros. Sequestrado por outros talentos – foi educador, ministro da Educação, deputado, ministro do Tribunal de Contas da União –, ele acabou administrador deficiente de seus escritos.

Otto Lara Resende, admirador e colega de Academia Brasileira de Letras, bem que se esforçou para alargar o círculo de leitores de Abgar Renault. Em 1991, quando o poeta estava para completar 90 anos, insistiu comigo para que tentasse emplacar matéria no Jornal do Brasil, onde eu trabalhava. Fracassei.

Naquele mesmo ano, bati bola com o sempre solícito Abgar, com isso enriquecendo o que veio a ser O Desatino da Rapaziada. Solicitude de que já me dera inesquecível mostra: em 1984, contei que não encontrara A Lápide Sob a Lua, e ele me enviou o livro, com um pedido de desculpas: “Infelizmente, o único exemplar que me resta foi organizado com as três primeiras páginas de trás para diante e de cabeça para baixo”. Nos contatos que tivemos, pude confirmar também a exatidão com que o descreve Pedro Nava em Beira-Mar – os “olhinhos extremamente vivos”, a “testa vertical”, o “nariz repentino”, o “queixo voluntarioso e firme”, a “silhueta magra e duma elegância seca”, sem “a desonra das banhas”.

Acho que foi também o Otto quem batalhou junto à editora Record para que lançasse Poesia Reunida, publicado com capa feia e papel qualquer em 1990. Que eu saiba, nunca foi reeditado – mesmo destino triste de Poesia – Tradução e Versão, de 1994, lançado um ano antes da morte do poeta. Falecido em dezembro de 1992, Otto Lara Resende teria se rejubilado com a saída deste livro, e, tanto quanto eu, estaria hoje pesaroso com o esquecimento que parece estar esmaecendo o grande Abgar Renault.

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