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Meu pecado literário

A esta altura dos acontecimentos, não tenho dúvida de que na vida você tem um, dois, no máximo três encontros realmente decisivos - e um dos meus foi, meio século atrás, com o contista Murilo Rubião. Muita gente mais, eu sei, veio, vem e, espero, virá me ajudar a manter o nariz acima da linha d'água e a seguir adiante, mas o Murilo teve em meu destino um peso especial. Foi alguém que encontrei para encontrar-me.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

15 Março 2015 | 02h06

Peço licença para recuar aos meus 20 anos, aquela idade em que, dizia o Hélio Pellegrino, você tem o sol nas mãos, mas não sabe disso. No meu caso, o sol apenas me queimava, perdido que estava na ofuscante luminosidade da juventude. Foi aí que me veio Murilo Rubião, de cuja existência chegara a duvidar, até o dia em que topei com um livro pouco mais novo do que eu: O Ex-Mágico, de 1947.

Soube então que existia mesmo aquele camarada que, dizia-se, convivera com a patota juvenil do Fernando Sabino, do Paulo Mendes Campos, do Otto Lara Resende e do Hélio Pellegrino, o célebre quarteto cujos feitos não necessariamente literários o primeiro romanceara em O Encontro Marcado, espécie de bíblia em que minha própria patota buscava se espelhar. Ao contrário deles, no entanto, Murilo padecia, a nossos olhos, de desconcertante invisibilidade. Não se tinha notícia de que houvesse, como os quatro, nas madrugadas belo-horizontinas, escalado os arcos do viaduto de Santa Teresa, convertendo em ritual de admissão nas letras a temerária traquinagem que, já pai de família, Carlos Drummond de Andrade inaugurara no final dos anos 20.

Desconcertante era também a prosa de Murilo, tão diferente da que se produzia no Brasil, num tempo em que ainda não chegara a nós o que mais tarde virou moda sob o rótulo complacente de realismo fantástico. Raros e cautelosos críticos se ocuparam de O Ex-Mágico, lançado pela Universal, editora carioca cujo brevíssimo catálogo se resumiu a quatro títulos, entre eles, em 1946, Sagarana, do estreante João Guimarães Rosa.

Nem mesmo o antenado Mário de Andrade sacou a ficção fora do esquadro do jovem Murilo, que de Minas lhe mandava originais. "O Mário não entendeu o gênero, mas fez tudo para gostar do autor", me disse ele, isento da vaidade e do correspondente ressentimento tão encontradiços no picadeiro da vida literária. Quando, já nos anos 60, publicou Os Dragões e outros contos, o não menos atento Antonio Candido lhe escreveu para penitenciar-se por não ter reconhecido de imediato um autor que já na estreia estava "instalado de pleno direito no cerne das melhores experiências da ficção contemporânea".

Os Dragões saiu em 1965, ano em que venci um concurso de contos de cuja comissão julgadora fazia parte o Murilo. Já não me lembro do valor do cheque que recebi das mãos de Alceu Amoroso Lima, mas conservo o prêmio maior que foi um exemplar de Os Dragões com dedicatória do autor.

Já contei que mais adiante Murilo me levou para trabalhar com ele no suplemento literário que ousara criar na chatice do Minas Gerais, o diário oficial do governo estadual. Você pode questionar a pontaria do apostador, mas não a generosidade com que ele investiu naquele frangote com fumaças literárias, ao qual deu imerecida corda não só como esboço de jornalista (ao custo, também já contei, do "traumatismo ucraniano" de uma desastrada entrevista com Clarice Lispector), mas também como comparsa nas letras.

Murilo me dava para ler seus impecáveis contos, fossem os novos, fossem os antigos, que vivia a retocar (a "despiorar", diria o Otto Lara Resende), alguns deles mais velhos do que eu. Enrubesço de vergonha retroativa ao lembrar da desenvoltura com que eu pontificava ante o grande escritor, em especial no dia em que, tendo sob os olhos uma versão retocada da obra-prima que é O Ex-Mágico da Taberna Minhota, impliquei com a palavra "despautério". Feia demais! - fulminei, com toda a arrogante ênfase dos meus 20 e poucos anos.

Décadas mais tarde, vexado, contei a história a um repórter - e ele, tendo ido conferir numa edição recente, fez a maldade de me comunicar que por culpa minha Murilo Rubião danificou seu texto, tirando dele uma palavra que encaixara com rigor e precisão de ourives. E o pior é que ele já não está aqui, para que eu lhe rogue, de joelhos, que desfaça o meu próprio despautério.

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