Maria Fernanda Rodrigues/Estadão
Maria Fernanda Rodrigues/Estadão

'Meu objetivo era propor uma reflexão', diz Ruffato

Escritor comenta reações a seu discurso na Feira de Frankfurt

Maria Fernanda Rodrigues/Enviada especial a Frankfurt, O Estado de S. Paulo

13 de outubro de 2013 | 21h33

O escritor Luiz Ruffato disse hoje que não se arrepende do discurso com o qual abriu a edição deste ano da Feira de Frankfurt. Em sua fala, o autor de Eles Eram Muitos Cavalos descreveu o Brasil como a terra da desigualdade e da impunidade. Seus comentários acabaram monopolizando os debates ao longo da feira e provocaram reações de colegas escritores presentes ao evento. "Eu não mudaria absolutamente nada, inclusive porque o que coloco não é a verdade. Meu discurso é a oferta de uma reflexão", diz o escritor na entrevista a seguir.

O que achou da reação ao seu discurso?

Sabia que haveria reação porque era um discurso que tentava discutir um país que a gente não gosta de discutir. Discutimos essas questões em botequim, mas não publicamente. Há dez anos falo isso, os meus livros tratam dessa realidade. Como fui convidado para abrir a Feira de Frankfurt, que é uma feira de livros, onde se discute livros, portanto, onde circulam ideias, achei que era o meu dever trazer essa discussão pra cá. A maior parte das reações, me parece, é favorável à minha intervenção e, de alguma maneira, ela iniciou um debate. E, claro, houve reações extremamente ofensivas, inclusive de pessoas que eu nunca imaginei que pudessem ter essa atitude, mas eu respeito e acho que demonstra um pouco como se está tentando polarizar essas discussões.

Houve alguma reação direta e pessoal a você, alguma agressão?

A internet está cheia de agressões dos mais baixos níveis, inclusive de colegas escritores, o que acho inacreditável. O que houve de verdade foi um certo constrangimento na hora do café da manhã de alguns colegas, que preferiam fingir que eu não estava ali, e alguns brasileiros que estão aqui na feira tentaram me agredir.

Os escritores brasileiros deram sua opinião sobre o discurso diretamente a você?

Pouco tive contato com eles por causa de compromissos, mas quem se aproximou de mim foi para apoiar. E aqueles que não chegaram, evidentemente, também encontram nisso uma forma de se manifestar.

A ministra Marta Suplicy disse à imprensa que sentiu falta de um Brasil mais mágico e literário no discurso.

O país mágico e literário está nos meus livros. Se alguém ler os meus livros vai perceber que a literatura está presente ali. Eu não estava falando como um escritor. Eu estava falando sobre um escritor que também é cidadão. E como cidadão, para mim, a literatura é uma representação da sociedade. Portanto, não falei absolutamente nada do que está nos meus livros. É literatura, é magia, mas de uma outra maneira.

O convite para fazer a abertura surgiu da feira ou do comitê organizador brasileiro?

Recebi o convite da curadoria brasileira. Se alguém sugeriu meu nome ou se foi decisão da própria curadoria, eu não sei. O convite oficial foi feito a mim por Antonio Martinelli.

Essa surpresa que seu discurso despertou pode ser um indício de que se conhece pouco sobre a obra de um autor? O presidente da Feira de Frankfurt disse ontem que já tinha lido seus livros, que por isso o discurso não o surpreendeu e que a indicação de seu nome não teria sido por acaso.

Eles Eram Muito Cavalos está na 10.ª edição no Brasil, e isso deve significar alguma coisa. E os outros livros também têm alguma visibilidade. Acho que a curadoria me escolheu porque eu era eu.

Essas críticas te atingem pessoalmente? Você vai embora chateado com a situação?

O embate de ideias, não. Ele é extremamente saudável. Meu discurso não é a verdade. Eu não sou a verdade. Simplesmente há algumas questões que eu coloco. Mas fico chateado sim porque algumas pessoas não têm respeito pela divergência e não querem levar o debate para o nível intelectual.

Acompanhando o que foi escrito e dito após o discurso e ponderando, mudaria alguma coisa hoje?

Estou escrevendo esse texto há muito tempo, eu o submeti a alguns amigos para discutirmos algumas questões específicas. Uma pessoa que conhece profundamente as estatísticas me ajudou muito. Eu não mudaria absolutamente nada, inclusive porque, como eu disse, isso não é a verdade. Isso é a oferta de uma reflexão. Evidentemente que se esse debate se mantiver e se esse debate for construído de uma maneira intelectual, se eu for confrontado, e se as pessoas que me confrontarem me mostrarem que estou errado em vários ou todos os pontos, eu posso mudar. Mas até o momento, o que eu disse é o que eu penso e não haveria nada a ser modificado nesse momento.

Você fica ainda algum tempo na Alemanha. Imagina, e espera, que o assunto ainda estará quente na volta?

Meu desejo era que esse fosse apenas o início de um grande debate a respeito da nossa autoimagem, mas não sei. As críticas ofensivas que existem na internet, aí sim meu desejo é que elas passem. O debate, público, me interessa.

Como escritor profissional, que participa de muitos eventos literários, tem medo de represálias ou acredita que a polêmica pode ajudá-lo?

Não sei. Vivemos num país muito complicado. Sinceramente, espero que não. Desejo que as pessoas que detenham algum tipo de poder no Brasil percebam que o que proponho é um debate bom. Como eu disse, não é uma verdade. Então, é bom que a gente debata até para provarem que estou equivocado. Mas eu não tenho certeza de que isso vai acontecer. Do ponto de vista profissional, isso não me ajuda em nada.

Que balanço você faz dessa edição da feira?

Foi ótimo porque o discurso politizou os debates. Em quase todas as mesas, foram discutidas questões importantes para o Brasil. Mesmo nas mesas que não eram brasileiras essa questão foi levantada e discutida. Discutiu-se muito. O que deveria ter sido feito foi feito e acho que cumpri o papel que era esperado, que era o de colocar uma plataforma nova de discussão a respeito da literatura brasileira no exterior e da imagem do Brasil no exterior.

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