Stefano Moro/Divulgação
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Meu nome é Lea T.

Ao atender o telefone em Milão, onde mora, para conversar com o Estado sexta-feira, Lea T. tosse feito criança e se desculpa: "Estou doente. Está um frio danado aqui e tenho trabalhado muito. Viajar, fotografar é ótimo, mas cansa muito." A mineira que nasceu Leandro Cerezo em Belo Horizonte, cresceu em Gênova e hoje é a transexual Lea T., chega esta semana a São Paulo com motivos para estar cansada. Capa da revista Love (na qual beija Kate Moss), estrela da Givenchy, e a it girl de Riccardo Tisci (amigo e diretor criativo da grife que a alçou ao estrelato), perfilada pela Vanity Fair italiana e a Vogue francesa, entrevistada pela Oprah Winfrey, Lea T. é destaque da edição de 15 anos da São Paulo Fashion Week, em que desfila no sábado para Alexandre Herchcovitch.

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2011 | 00h00

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A modelo, que há pouco mais de seis meses não queria mais pisar no Brasil, está ansiosa para sua estreia em solo pátrio. "É a primeira vez que faço algo fora da Givenchy e da Europa. Temo um pouco o assédio. Quando me disseram que teria meu camarim, levei um susto. Imagina ter esse privilégio na Europa!" E a mágoa já passou? "Sim. A forma como eu e, principalmente, meu pai fomos tratados pela mídia quase fez com que não quisesse mais voltar. Nem na Itália, onde há tanto moralismo, foi assim. Logo meu país, que faz pose de "liberal", mas é hipócrita, me julgar assim? Foi injusto. Pensei melhor. Minhas raízes estão aí, há muita gente boa, tenho e saber separar. Quem me tratou daquela forma não merece respeito."

A forma à qual se refere Lea diz respeito às notícias de que seu pai, o ex-jogador de futebol e hoje técnico Toninho Cerezo, renegasse o filho transexual. "Absurdo. Meu pai não quis falar com a imprensa porque nem ele nem minha família de Belo Horizonte estão preparados para falar disso. Ainda é tudo muito novo. E sequer me ligaram para saber minha versão", disse Lea sobre o ocorrido. "A versão de que não nos falamos é mentira. Ele foi a pessoa mais doce, que mais compreendeu minha decisão de mudar de sexo, dizendo: "Cresci em ambiente de muita pobreza, já vi de tudo. Sei o que é bom e ruim. Conta comigo para o que der e vier.""

O ídolo do clube genovês Sampdoria não imaginava a onda de boatos e preconceitos que estava para vir, nem Lea. "Nunca pensei que minha estreia como modelo teria essa repercussão. Se isso muda um pouco, não só a moda, mas o mundo, já é muito. "

Lea falou sobre o que mudou, o que o continua o mesmo, sobre sexualidade, amor e, claro, moda.

Ao aceitar desfilar para Herchcovitch, fez as pazes com o País? Já gostava de seu trabalho?

Só voltaria por um motivo muito bom. Quando o convite do Herchcovitch chegou, tive o motivo.

Adorava. Descobri o Herchcovitch por meio da Geanine Marques. Um dia vi a foto dela e disse para o Riccardo (Tisci) que ele tinha que chamá-la para um desfile. Ela, com seu jeito andrógino, que tanto simbolizo, chamou minha atenção. Depois é que soube que o desfile era do Alexandre.

Por falar no Riccardo, como se conheceram?

Sempre adorei moda. Quando era mais jovem, gastei um apartamento com as grifes japonesas, que adoro. Quando me mudei para Milão, fui trabalhar com moda. Conheci o Riccardo há dez anos. Ele acabara de ser formar na Saint Martins, em Londres, e estava de volta à Itália. Era amigo de uma amiga com quem eu morava. Um dia ela me mostrou uns croquis lindos. Eram dele. E a gente acabou amigo. Hoje é minha família.

O T é em homenagem a ele?

Exato. Devo muito ao Riccardo. Foi ele que um dia, quando telefonei chorando, querendo morrer, desesperada porque não encontrava emprego e não saberia ser prostituta, me apoiou.

Então decidiu que você estrelaria a campanha da Givenchy.

Foi um processo. O que mais admiro nele é a coragem. Como já era assistente dele, fazia todos os testes de roupa. Um dia, no backstage de um desfile, o Luís Moreno (badalado cabeleireiro) viu as polaroides que eu tirava com as roupas e disse ao Riccardo: "Põe a Lea para desfilar". Ele precisava consultar a presidência da Givenchy. Depois os convenceu que eu poderia fazer a campanha da grife, no ano passado.

Sua vida mudou este ano?

O trabalho está uma loucura. Ao mesmo tempo, sou a mesma Lea e enfrento o mesmo preconceito. Semana passada, em pleno metrô de Milão, um cara começou a gritar comigo porque sou transexual. Disse que gente como eu tem que morrer. O que surpreende é que, além de não terem me defendido, depois dele sair do trem, ninguém perguntou se eu estava bem.

E na moda? O que mudou?

Mudou que o Riccardo, ao nos pôr na alta moda, calou a boca de muita gente. Mas ainda há muito trabalho que não consigo, castings que nem faço porque são "só para mulheres".

Nunca foi modelo masculino?

Fui. Mas ouvia: este casting é para homem! Era magrinho, de cabelão, fazia o tipo índio hippie anos 70, as roupas ficavam grandes. Cortei o cabelo para parecer mais masculino. Piorou, fiquei com cara de mocinha Jackson Five.

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