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Meu filho, o assassino

Novo dia, novo assassinato em massa. Desta vez, no estado de Michigan, um homem sem registro na polícia pegou o carro que já havia usado como motorista do Uber e saiu atirando a esmo contra desconhecidos. Quando parou, tinha deixado um saldo de seis mortos e dois gravemente feridos.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

22 de fevereiro de 2016 | 02h00

Foram 200 assassinatos em massa na última década, sob o critério de classificação do FBI: crimes com quatro ou mais mortos. Pouco antes de sua candidatura morrer, de morte natural ou falta de votos, o ex-presumido pré-candidato favorito do Partido Republicano, Jeb Bush, foi objeto de ridículo viral ao tuitar a foto de uma pistola com seu nome gravado e apenas a mensagem #América. Sua tentativa desesperada de vender testosterona tem um contraponto no desespero de vítimas da violência aleatória.

Uma mulher que era contra armas e não permitia nenhuma em sua casa, esperou 17 anos para contar sua história. A mãe de Dylan Klebold, um dos dois assassinos suicidas de Columbine, merece ser ouvida.

Antes de massacres se tornarem rotina nos Estados Unidos, antes de políticos reagirem a esta aberração serial com hipocrisia e exortações por mais armas de fogo, aconteceu Columbine. O massacre da escola de segundo grau do Colorado, em 1999, foi tema do documentário de Michael Moore que ganhou o Oscar de 2003. Quem se lembra de sair do cinema com um nó na garganta e pensar: será o começo do fim? Não foi, e, no Colorado, a liberalização do porte de armas por meio de novas leis só aumentou depois do outro massacre que desafiou a credulidade global: o da escola em Sandy Hook, em Connecticut, em 2012, que teve 27 vítimas – 20 delas de seis ou sete anos.

O livro de memórias de Sue Klebold está saindo nos Estados Unidos com o título O Ajuste de Contas da Mãe – Vivendo Com O Resultado de Uma Tragédia. Revela seu esforço para manter a lucidez por meio de luto indescritível, determinação de conhecer o lado escuro de um objeto de amor materno e compaixão sem autopiedade.

Dylan Klebold tinha 17 anos quando matou 13 pessoas e feriu 20 em sua escola, num pacto de homicídio-suicídio com o colega de classe Eric Harris. Em muito do que se escreveu sobre o massacre, Eric foi descrito como psicopata e homicida, o líder que se aproveitou da fragilidade do amigo em depressão, mas a mãe de Dylan não se ampara no que considera uma versão simplista.

Sue Klebold preferiu não se debruçar sobre a vida de Eric ou da amiga de Dylan que já tinha 18 anos e comprou armas para ele. Há 15 anos, ela trabalha em prevenção de suicídio e o lucro da venda do livro vai para organizações ligadas à saúde mental.

Não há nenhuma revelação bombástica na autobiografia, mas há, como diz o título, uma avaliação que vai tocar pais de adolescentes. Pouco antes do massacre, Dylan pediu uma arma de presente à mãe. Ela negou: “Quando fizer 18 anos, você decide, mas sabe que eu jamais aprovaria uma em casa.” Ele respondeu que já previra a resposta. Havia uma feira de armas de fogo na cidade e Dylan, como tantos autores de massacres, conseguiu as suas com facilidade. Anos depois, Sue Klebold revisita o diálogo e acredita que sua reação foi comparar o pedido a outros, quando o filho queria tomar aulas de ultraleve ou pedira um muscle car. Afinal, lembra, vivia num estado cercada por donos de armas. Ela e o marido eram tão contra a cultura de armas que tinham pensado em se mudar do Colorado.

Logo depois do massacre em Columbine, uma pesquisa de opinião mostrou que 83% dos americanos culpavam os pais dos assassinos pela tragédia. Esta noção tem parte de sua origem no reino do psicólogo Bruno Bettelheim sobre a cultura da psicologia pop. Bettelheim, que se suicidou em 1990, comandou por décadas uma clínica para crianças com distúrbios emocionais em Chicago e inventou a teoria da “mãe geladeira” para culpar a frieza materna por autismo e outros distúrbios. Antes de ser desmoralizado pela medicina psiquiátrica posterior, Bettelheim foi denunciado por ex-pacientes como espancador de crianças e tirano.

A história de Sue Klebold oferece uma pausa para qualquer pessoa que tenha tentado decifrar o comportamento de um filho e o limite entre as dores do crescimento e a patologia. Ela teve que reconciliar o jovem conhecido entre amigos e parentes como uma figura doce com o Dylan que gravou vídeos sobre os planos do massacre.

Ainda hoje, quando tem que dar o nome completo a estranhos, Sue Klebold, diante de olhares inquisidores, considera seus riscos, mas prefere seguir adiante usando seu próprio nome. Acha que, se conhecerem sua trajetória, ela pode servir para inspirar mudança. Demonstra mais coragem e clareza do que a grande maioria da classe política de seu país. 

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