'Meu Deus' leva o Criador ao divã da psicóloga

A humanização de um inseguro Todo-Poderoso está na montagem estrelada por Irene Ravache e Dan Stulbach

Jefferson Del Rios, Especial para O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2014 | 02h09

A comoção que Meu Deus irradia está na capacidade da escritora israelense, Anat Gov, em representar Deus como um homem contemporâneo (paletó, colete) e ainda brigar com ele naquela conhecida veemência das discussões judaicas. Quem fala por Anat (1953 - 2012) é a psicóloga ateia que subitamente recebe o Criador transfigurado em paciente. Ela lhe diz coisas que há milênios sobrecarregam o imaginário judaico-cristão. Consegue fazê-lo como quem, no fundo, quer um abraço de reconciliação. Pode parecer um lance melodramático, agnóstico ou simples humorismo, mas se trata de um achado literário. Teatro generoso a contornar as abstrações da fé (nenhuma religião é citada) com uma sugestão tentadora: e se pudéssemos falar com Ele? Peça basicamente suave mas com momentos que lembram Quando Teresa Brigou com Deus, de Alejandro Jodorowsky. O livro de fundo autobiográfico deste chileno filho de judeus, há anos radicado na França, começa sem meias palavras: "Em 1903, Teresa, minha avó, a mãe do meu pai brigou com Deus e também com todos os judeus de Dnipropetrovsk, na Ucrânia, por seguirem acreditando Nele apesar da mortal cheia do Rio Dnieper. Nesta inundação morreu José, seu filho adorado". A mulher, escreve Jodorowsky, "invadiu ferozmente a sinagoga" e diante de toda comunidade bradou: "Seus livros mentem. Dizem que você salvou todo o povo, que abriu o Mar Vermelho com a mesma facilidade com que eu corto cenouras e, no entanto, não fez nada por meu pobre José (...) Não tem piedade. É um monstro. Criou um povo eleito só para torturá-lo. Quem lhe fala é uma mãe que perdeu a esperança e, por isso, não teme mais. Siga na escuridão, faça e desfaça universos, fale, troveje, não o escuto mais."

O episódio reflete com variações o que agora se passa em uma sala elegante onde Irene Ravache é psicóloga mas também a mãe que tem contas a acertar com o Todo Poderoso. Seu belo rosto é todo um mapa de emoções. Até no silêncio sente-se a atriz de alta intensidade. Dan Stulbach, com olhar enigmático e ênfase reflexiva nas falas, é o próprio Deus, cujas incertezas o fazem descer junto aos mortais. O espetáculo dirigido por Elias Andreato valoriza as sutilezas de humor e desencanto. O encenador se impõe pela discrição. A plateia ri bastante entre os jogos de palavras e clichês freudianos, mas percebe rápido que há bem mais na história. Excetuando-se uma ou duas referências específicas (Mossad, o serviço secreto de Israel) o texto independe de fronteiras ou nacionalidades. Deus está perplexo porque face à vastidão e harmonia das galáxias e a paz na Terra l antes de Adão, o homem, este triste e perigoso animal, colocou a perder sua Obra. Confessa que tentou melhorar o mundo ao mandar para cá "um rapaz" que não teve muita sorte em 33 anos de vida.

A psicóloga, mãe e descrente até então, por sua vez não facilita o diálogo. Em um dos grandes momentos do espetáculo relembra que Ele na última vez que se dirigiu diretamente ao homem foi com Jó para cobri-lo de indizíveis sofrimentos. Embate formidável no campo do teatro com dois intérpretes em plena sintonia e o jovem Pedro Carvalho em uma composição difícil que explica a parte submersa do enredo. De certa forma, ele é um Jó. Seu drama embora individual se for ampliado para sofrimento das multidões, povos inteiros, faz compreender porque o Papa Bento 16 diante de Auschwitz-Birkenau sentiu-se obrigado a perguntar: "Onde estava Deus naqueles dias?". Em todo caso, a autora deposita um voto de confiança Nele. O poeta Dylan Thomas (1914-1953) - que viveu os mesmos e sofridos 33 anos - escreveu: "Esses poemas, com todas suas cruezas, dúvidas e confusões, foram escritos por amor do Homem e em louvor de Deus". À sua maneira Meu Deus está no mesmo caminho.

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