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Meu ciclo do ouro

Era fascinante o espetáculo daquele homem a derreter moeda para restaurar nossos dentes

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

29 Janeiro 2019 | 02h00

Saudade do tempo em que eu ia ao dentista para extrair dinheiro.

Há um pouco de exagero neste arroubo nostálgico, ocorrido aqui na sala de espera do consultório ao qual me trouxe um molar malcomportado. No tempo a que me refiro, havia também ocasiões em que, literalmente boquiaberto, eu permitia que o dr. Hugo escarafunchasse as mandíbulas de um futuro cronista, o segundo de seus 11 filhos. Ao constatar que não existe boticão carinhoso, por mais que seu operador o seja, mais de uma vez me perguntei, transbordante de culpa católica, se aquele tormento não seria o preço a pagar pela sem-cerimônia com que eu subia ao 6.º andar do edifício Bom Destino – mais que nunca merecedor deste nome – para batalhar um suplemento de mesada. 

Ainda que possa ter havido negativas, e com certeza houve, estribadas quando menos no meu lamentável desempenho escolar, sinceramente não me lembro de nenhuma vez em que tenha saído do consultório paterno sem restauração nas finanças cariadas. O dr. Hugo era homem generoso. Boa parte de sua vasta clientela era atendida de graça. Parentes, amigos, padres e freiras de lá saíam sem meter a mão no bolso. Folgado, eu contribuía para ampliar o time das gratuidades, ao pedir ao pai que socorresse algum colega do meu curso de direito. 

E havia também supostos pagantes, não raro gente endinheirada, que na hora do vamos ver não o eram, ou que rolavam interminavelmente sua dívida odontológica. Lembro de mamãe furiosa quando lia, na coluna social, que os grã-finos Fulana e Beltrano andavam pela Europa, a “estrafegar” (dona Wanda adorava este verbo raro e expressivo) em prazeres uma grana que deviam a meu pai. Dizia que o dentista, ao contrário do médico, não é visto com alegria, estando sua imagem associada sobretudo ao zunido do motor e ao desconforto de uma boca escancarada. De qualquer forma, nunca ouvi falar de dentista que tivesse livrado alguém da morte, como fazem tantos médicos, merecedores por isso da gratidão e reconhecimento até material de seus pacientes. Regalos de fim de ano, como aqueles que inundavam casa e consultório dos profissionais da medicina? Um ou outro, e olhe lá.

Consultório, por sinal, era palavra pouco ouvida em nossa família, na qual se preferia “gabinete” – aquele lugar onde o papai ralava (e polia) o dia inteiro. Cirurgião dentista de seu tempo quase nunca recorria a um protético para executar em metal, coisa rara hoje em dia, peças por ele moldadas em cera. Já contei (O Outro Lado da Moeda) que meu pai se incumbia de todo o processo – da abertura das cavidades ao seu preenchimento com restaurações que ele mesmo fundia. Embasbacado, ainda o vejo a empunhar o maçarico e fazer o ouro líquido (obtido, às vezes, com o sacrifício de moedas de libra esterlina) ir obturar no outro braço da centrífuga o espaço antes ocupado pelo molde em cera. 

É inapagável a lembrança de meu pai a dar acabamento às peças assim produzidas, para isso utilizando um ruidoso motor, o “motor de corda”, anterior aos que zuniam, “a jato”, introduzidos no Brasil em algum momento dos anos 50. Já contei também que o pó de ouro resultante daquele trabalho de polimento, feito sobre uma bandejinha de cristal, era recolhido em vidrinhos vazios de material odontológico, para posterior reutilização – e que um dia um ladrão levou todo o ouro em pó amealhado pelo dr. Hugo. 

Daquela centrífuga, daquele gabinete, saíram restaurações que haveriam de impressionar dentistas – ou, quando veio o tempo de linguagem enfeitada, “odontólogos” – a que os filhos do dr. Hugo precisaram, mais tarde, confiar seus marfins. Meu irmão Otávio conta que um dia procurou o dentista da empresa de engenharia onde trabalhava, em São Paulo, e o camarada que o atendeu, ao deparar com restaurações feitas por meu pai, jogou a toalha: “Sou arrancador de dente”, esquivou-se ele, “não meto a mão em trabalhos como esses!”. Mandou um cartão para o colega mineiro, cumprimentando-o. 

Também eu repassei ao autor os elogios do dr. Marcel Amar, meu dentista em Paris, e os que ouvi no primeiro consultório a que recorri em São Paulo, para onde vim há quase meio século. Naquela ocasião, aliás, me dei conta de que saíra das mãos do dr. Hugo para me entregar a uma xará de minha mãe, e por pouco não saltei da cadeira da dra. Wanda para me deitar, em posição fetal, no divã mais próximo.

***

Entre os asteriscos acima e a retomada do papo, estive sob os cuidados de um profissional competente, o qual, depois de dar a má notícia, inesperada também para ele – impossível salvar o dente –, executou com sucesso a solitária alternativa que restava. Hora e meia depois de aqui entrar, eis que um antigo moleque, dado a subir ao gabinete do pai para dele extrair uns trocados, se vai agora do consultório do dr. Alexandre, onde deixou dinheiro vivo e um molar falecido. 

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