Meu Brasil, brasileiro

Meu Brasil, brasileiro

Eram 4 da tarde de quinta-feira e eu me encontrava a postos na minha estação de trabalho na National Geographic Brasil. Liga o professor Antonio Pedro Tota. Sabia que era ele porque tenho Bina. É aquele monitor no telefone que diz quem está ligando, para quem desconhece, uma das invenções mais úteis da era digital.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2010 | 00h00

Ligou para me contar que havia recebido um livro que poderia servir de base para minha crônica aqui no Estado. O professor se preocupa comigo e meus escritos. Comove, confesso. Manda-me artigos de publicações acadêmicas, recortes dos jornais americanos. Como ele também escreve, sabe como é difícil ser relevante ou divertido ? digno do tempo do leitor, enfim. E, cá entre nós, Tota também desconfia que se eu não tiver assunto, sairei por aí contando histórias dele, que é sempre bom, também.

Deixou o livro para mim na portaria do seu prédio. O título é Um Enigma Chamado Brasil: 29 Intérpretes e Um País. Foi organizado por André Botelho e Lilia Moritz Schwarcz e publicado pela Companhia das Letras. E não é que o professor tinha razão? Chegou um pouco em cima da hora. Li pouco dele até agora, quatro capítulos e a introdução, para ser exato, e xeretei tudo. Mas já adorei. É uma coletânea de ensaios, escritos numa linguagem acessível, ou seja, no português fora dos ambientes das teses acadêmicas. Lê-lo é um prazer.

Reúne resumos das obras dos grandes ensaístas que se dedicaram à questão, formulada pelo Roberto DaMatta, o que "faz do Brasil, Brasil". A epígrafe do livro, para se ter uma ideia, é aquela insuperável frase de Antonio Carlos Jobim, "o Brasil não é para principiantes".

O nosso país é rico em ensaístas. Desde a chegada dos portugueses, buscam-se interpretações da sua razão de ser e significado cultural. Alguns desconfiam que isto aqui não pode dar certo. É muita confusão. Outros acreditam ter vislumbrado nestas bandas caminhos para o futuro da humanidade.

Neste momento da globalização, em que as culturas se encontram diariamente, a todo momento, e se mesclam com rapidez, nada mais relevante do que recuperar as ideias dos grandes pensadores da identidade brasileira. Qual é o nosso papel nessa festa mundial, afinal?

Se dependesse de mim, o livro seria lido por todos os alunos de faculdade. Já vou providenciar um exemplar para minha filha, Maria. Seu mérito é mostrar que ensaístas clássicos e antigos e difíceis de ler, hoje, são relevantes. O capítulo dedicado a Sérgio Buarque de Holanda destaca uma observação do segundo prefácio do livro: Visão do Paraíso. "Nele refletiu que, enquanto os puritanos que se estabeleceram na América do Norte ansiavam encontrar uma terra inóspita que com muito esforço poderia ser transformada em paraíso, os ibéricos buscavam o Éden na terra que generosamente se oferecia e só estava à espera de ser desfrutado." Termina o capítulo com a seguinte observação: "...Sérgio Buarque parece ter procurado a cura do que Mário de Andrade chamava de doença de Nabuco: no Brasil, sentir falta do espírito europeu; na Europa, sentir falta da terra brasileira."

Minha maior alegria ao abrir a coletânea, no entanto, foi a de encontrar um ensaio dedicado ao meu saudoso guru Richard Morse, o único entre os chamados brasilianistas a receber tal honra (na verdade, o professor já tinha me contado pelo telefone). Onde quer que esteja o dr. Morse, quiçá no céu do Haiti, deve estar feliz. Adoraria se encontrar na companhia de velhos e ilustres amigos como Antonio Candido, Fernando Henrique Cardoso e Florestan Fernandes. O autor do capítulo, Pedro Meira Monteiro, resume a complexa obra do mestre em um texto competente e bem escrito, o que não é pouca coisa, acredite. Daria eu, apenas, um pouco mais de peso ao restante da América Latina no pensamento morsiano. A obra máxima do Morse, O Espelho de Próspero, afinal, foi elaborada para Octavio Paz, no México. Mas este é um detalhe. A observação mais aguda e original de Monteiro, que nunca vi em lugar nenhum, embora seja tão certeira, segue: "É difícil ler Morse sem sorrir. Ou mesmo sem rir abertamente."

Até onde vi, a ideia de Um Enigma Chamado Brasil é falar bem dos ensaístas. O que me parece corretíssimo: mostrar aquilo que trazem à mesa do debate de hoje a respeito da identidade brasileira. Senti falta de um capítulo dedicado a Roberto DaMatta. E talvez de um ou outro ensaísta menos acadêmico, na segunda metade da obra, como os baianos Caetano Veloso e Antonio Risério. Mas aí sou eu, sempre em busca do "pop".

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