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Metropolitan celebra os 50 anos da primeira mostra de Andy Warhol

'Regarding Warhol - Sixty Artists, Fifty Years' investiga o legado que o ícone pop deixou para a arte contemporânea

NATHALIA LAVIGNE - especial para o 'Estado',

09 de novembro de 2012 | 02h09

NOVA YORK - Há dois caminhos possíveis para seguir na saída da exposição Regarding Warhol - Sixty Artists, Fifty Years, em cartaz no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, até o fim de dezembro. O percurso natural e quase irresistível é terminar na loja de suvenires da própria mostra - o que não deixa de ser uma ironia (ou quase um pleonasmo) quando se trata de Andy Warhol (1928-1987), o artista que se definiu como uma projeção de tudo que pode ser comprado e vendido e passou anos copiando caixas de sabão e latas de sopa das prateleiras do supermercado.

Mas a melhor opção talvez seja continuar pelas galerias de Arte Moderna e Contemporânea do acervo e fazer o caminho contrário: enquanto a exposição investiga o legado que o maior nome da pop art deixou para a produção contemporânea, não custa relembrar quem eram seus antecessores imediatos. Jasper Johns e sua primeira versão monocromática da bandeira americana (White Flag, 1955) está logo em uma das salas após a exposição, não muito longe de uma pintura de Robert Rauschenberg (1925-2008) - ambos influências diretas e fundamentais para Warhol.

Também não se pode ignorar Jackson Pollock (1912-1956) e outros nomes da produção americana do pós-guerra ali representados - mesmo que a relação entre a subjetividade do expressionismo abstrato e o pragmatismo da pop art seja mais nítida pelo contraste. Mas esse pode ser um bom caminho para entender o fenômeno Warhol. Afinal, só pela oposição a tudo o que se entendia como arte até então é possível dimensionar o que ele representou naquele período. E, pelo que se vê na cena contemporânea, ainda representa 50 anos depois.

Idealizada pelo curador independente Mark Rosenthal e organizada com o departamento de arte moderna e contemporânea do Metropolitan, a exposição parte de duas efemérides principais: o aniversário de 25 anos de morte de Andy Warhol e os 50 anos da sua primeira mostra individual em Nova York, na Stable Gallery, em novembro de 1962 - um ano depois de ter sido rejeitado pela prestigiada Leo Castelli Gallery, que já representava Roy Lichtenstein na época.

Mas 1962 teve outros fatos marcantes. Meses antes, Warhol tinha exibido pela primeira vez a série de 32 pinturas da lata de sopa Campbell (que logo depois se tornaram uma tela única) em Los Angeles. Por uma cruel coincidência, a exposição terminou no mesmo dia em que Marilyn Monroe (1926-1962) se suicidou - e foi exatamente quando ele começou a série com a imagem da atriz reproduzida em silk-screen, bem a tempo de exibi-las pelas primeira vez na mostra em Nova York.

"Há uma série de aniversários em 2012. Além disso, me parece um bom momento para se falar sobre ele, tanto que vários museus têm se voltado para o legado do Andy Warhol nos últimos anos. Mas achamos que este projeto só faria sentido se mostrássemos sua obra com esses artistas das três gerações posteriores", avalia Marla Prather, curadora de arte moderna e contemporânea do Metropolitan.

A exposição foi anunciada pelo museu como a primeira mostra a explorar o real impacto de Warhol sobre a arte contemporânea. Coincidência ou não, o evento acontece no mesmo período em que a Fundação Andy Warhol divulgou que vai se desfazer de seu acervo para investir em bolsas de estudos e projetos de arte. Algumas obras serão doadas para museus e instituições, mas boa parte vai ser vendida em uma série de leilões organizados pela Christie's - o primeiro deles acontece na segunda-feira, em Nova York.

Com um total de 45 trabalhos de Warhol e cerca de 100 de outros 60 artistas, a mostra é organizada em cinco módulos - cada um dedicado a um aspecto da produção do ícone pop. Marla Prather explica que a separação por esses temas foi a base do projeto. "Tomamos o cuidado para que as fronteiras fossem bem flexíveis. Várias dessas obras poderiam estar em qualquer núcleo temático", afirma. Já a lista dos nomes acabou sendo ampliada - ainda assim, a curadora garante que foi difícil fechar em 60. "No início seriam 50 artistas em 50 anos, mas decidimos aumentar. Tenho certeza de que poderíamos chegar facilmente a um total de 80", conta.

Alguns nomes também aparecem repetidas vezes - Cindy Sherman e Jeff Koons, por exemplo, são vistos em várias seções diferentes. Um dos poucos não americanos da mostra, Vik Muniz também é representado mais de uma vez - primeiro com a releitura da clássica imagem de Neil Armstrong pisando na Lua, refotografada da revista Life, e depois com um dos trabalhos da série feita com chocolate.

A exposição começa com o módulo sobre a fascinação de Andy Warhol pela produção em massa e pela violência, com a clássica pintura das garrafas de coca-cola (1962), as caixas de sabão Brillo (1964) e diversas obras da série Death and Disaster. A tela com potes de plástico do alemão Sigmar Polke (1941-2010), o armário de remédios do inglês Damien Hirst e o vaso com o logotipo da Coca-Cola do chinês Ai Weiwei compõem alguns dos principais diálogos deste núcleo.

O módulo seguinte trata dos retratos de celebridades - as revolucionárias pinturas feitas a partir de fotos e transpostas para o silk-screen, processo de impressão até então industrial, responsável por deixar as imagens com cores intensas e contrastadas. Lá estão umas das incontáveis reproduções do rosto de Marilyn e o retrato de Mao Tsé-tung, feito por Warhol depois de o ditador chinês ter sido eleito o homem mais famoso do mundo pela revista Times. A mostra segue para a seção sobre a importância de Warhol como um dos primeiros artistas a assumir sua homossexualidade tão abertamente, atitude que influenciou nomes como Robert Mapplethorpe (1946-1989) e Nan Goldin no questionamento de sexualidade e gênero.

O penúltimo núcleo volta-se para a produção de Warhol das décadas de 1970 e 1980, quando as apropriações de assuntos do noticiário e de outras áreas se tornaram frequentes. Cindy Sherman e um de seus autorretratos inspirados em cenas do cinema, a versão de Andy Warhol da Mona Lisa feita quando a obra foi exibida nos Estados Unidos e a foto de John Baldessari com a imagem de um filme B são algumas da conexões apontadas. O último módulo encerra a exposição com trabalhos inspirados na noção da arte como negócio - outro ideia de Andy Warhol que parece bastante atual entre a produção contemporânea.

Escolhas previsíveis. Inaugurada em setembro, a exposição tem atraído um público numeroso e promete ser uma das mais visitadas do ano. Mas a recepção da imprensa americana não foi tão calorosa. Roberta Smith, crítica de arte do The New York Times, lamentou especialmente a seleção dos nomes. "A mostra gira em torno de artistas academicamente aprovados ou com um apelo de mercado. Há raramente alguma surpresa, apenas nomes já familiares", escreveu.

Douglas Crimp, professor de História da Arte na University of Rochester e autor do livro Our Kind of Movie: The Films of Andy Warhol (MIT Press), lançado em abril, também não achou a mostra muito inspiradora: "Poucos artistas são realmente inesperados e as divisões temáticas me pareceram bem simplistas. Os trabalhos de Andy Warhol exibidos são todos excelentes, mas acabam ofuscando as outras obras. Além disso, fiquei decepcionado de ver seus filmes analógicos de 16 mm exibidos em DVD. Será que o Metropolitan também colocaria a reprodução digital de uma pintura no lugar da original?", questiona.

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