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Metrópoles da criatividade

Um efeito previsível do Brexit é que Londres não vai mais atrair tantos jovens criativos

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2016 | 04h30

Londres viveu com o Brexit uma experiência que Nova York conhece bem. A do centro cosmopolita que é desdenhado pelo resto do país. Não chegou a surpreender os londrinos o fato de que o nível médio de escolaridade é mais baixo entre os que votaram para dar as costas à União Europeia do que entre os que votaram para ficar. Ou que 80% dos idosos votaram pela saída e 74% da população como menos de 24% votou por ficar.

Nova York é saco de pancada de político populista. Na campanha presidencial, o ex-pré-candidato texano Ted Cruz disse que Donald Trump era a personificação dos “valores de Nova York”. O xingamento se refere a liberalismo político, cultural e moral.

Nos meses que antecederam o Brexit, agora também conhecido como Bregret (de ‘regret’ – arrependimento), artistas e líderes de instituições culturais londrinas soaram o alarme. “Vão todos embora para Berlim,” diziam. A indústria criativa na Grã-Bretanha estava produzindo duas vezes mais empregos do que o resto da economia e o acesso ao mercado comum ajudou a tornar a cultura responsável por 8,7% das exportações britânicas. O divórcio do continente, argumentaram, seria um grande retrocesso.

Há algum pânico no aquecido mercado de arte britânico com o enfraquecimento da Libra Esterlina. Londres testemunhou uma explosão de startups nos últimos cinco anos e o futuro desta indústria também está em dúvida. Não se deve esquecer o bolor de líderes como Neil Farage, saudoso por uma Grã-Bretanha mais branca como da década de 1950 – justamente quando o reino não tinha uma cultura jovem. Um efeito previsível do Brexit é que Londres não vai mais atrair tantos jovens criativos do continente que viam a cidade como a capital cultural da União Europeia.

Mas, anos antes de David Cameron comprar sua reeleição com uma aposta de referendo que pode dissolver o Reino Unido como o conhecemos, o debate sobre a metrópole que expulsa seus artistas já era intenso como é o de Nova York. A gentrificação de vizinhanças como o Soho em Manhattan ou o londrino Shoreditch atrai profissionais do mercado financeiro, milionários e bilionários estrangeiros lavando dinheiro e desmonta comunidades de artistas.

Em 2010, a musicista, poeta e artista visual Patti Smith declarou: “Nova York se fechou para os jovens e para os que ainda estão lutando. Nova York foi tomada de vocês. Meu conselho: encontrem uma nova cidade”. Quem sabe, Detroit, ela sugeriu. Detroit, então falida e dilapidada, atraiu, sim, jovens, sem fazer o menor arranhão em Nova York. Esta cidade tem o maior número de estudantes fazendo pós-graduação em artes no país, uma população que dobrou na última década. Mas o preço da anuidade está entre os mais altos da educação superior e os recém graduados dificilmente podem encontrar moradia, especialmente se têm anos de prestações de empréstimo escolar pela frente.

Desde que me mudei para Nova York, na década de 1980, observo a angústia provocada pelo avanço da indústria imobiliária sobre bairros identificados com artistas e escritores. Sentia melancolia quando deixava o prédio de escritórios onde trabalhava e dava de cara com Kurt Vonnegut sentado num banco na Terceira Avenida com a Rua 48. Vonnegut vivia há décadas numa gentil town house naquele quarteirão. A imagem do escritor, morto em 2007, respirando fumaça dos ônibus na avenida permanentemente engarrafada, me lembrava que ele adquirira o hábito em outro tempo e continuava a reclamar seu território.

Nova York continua tendo os melhores museus, teatros e salas de concerto do continente, mantém a concentração de dinheiro e audiência. O status de vitrine de cultura não parece ameaçado. O desafio para Nova York e Londres é continuar a atrair sonhadores como a jovem magrela de Nova Jersey que desembarcou em Manhattan em 1967 sem um tostão e encontrou sua casa. O nome dela era Patti Smith.

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