Metástase

O assassinato de uma defensora de direitos humanos eleita pelo povo é atentado à democracia

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

21 Março 2018 | 02h00

Na terça-feira, 13 do corrente, fui ao médico. Ao sair da região oceânica de Niterói, onde resido, para o bairro de Santa Rosa, local do consultório, passei pela “garganta” - uma estrada estreita e perigosa entre um abismo e um morro salpicado de moradas pobres das quais nos envergonhamos, mas aceitamos com as gritarias e as hipócritas indignações de sempre.

Nesse espaço no qual é impossível retornar e onde o trânsito segue entupido, surgiram dois homens. Um deles usava uma touca ninja, portava na mão direita uma submetralhadora e com a mão esquerda ordenava que o trânsito desse passagem para ele e para o seu companheiro, cujo rosto estava igualmente mascarado. Seria o chefe, comentamos tomando consciência do nosso pavor. “Temos sorte”, disse meu companheiro, porque, se naquele momento surgisse um carro da polícia, haveria troca de tiros e poderíamos ser atingidos. 

(Tal como ocorreu no dia 14, no Catumbi, quando o empresário Claudio Henrique Costa e seu filho menor, depois de uma consulta médica, tiveram o infortúnio de ser abordados por bandidos no momento em que passava a polícia. Na troca de tiros, o pai foi morto e o menino em desespero viveu mais uma rotineira tragédia carioca.)

Assimilamos a aparição tenebrosa e seguimos tranquilamente para a minha consulta esquecidos (como faz parte da vida) do nosso maligno estilo de vida. 

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Fui assaltado duas vezes à mão armada. 

Na primeira, três jovens trêmulos levaram uma pasta com o meu salário de pesquisador e professor do Museu Nacional. Não havia na pasta os milhares de reais a que ficamos acostumados nesta metástase moral que infesta o Brasil. Não! Era apenas o dinheiro ganho com o trabalho de lecionar e procurar entender culturalmente grupos tribais e a sociedade brasileira.

Na segunda vez, levaram relógios: o meu e o do meu companheiro com quem eu acabei comemorando o fato de estarmos vivos porque o assalto foi no intervalo de um sinal de trânsito, no centro da cidade. Realizado por um profissional armado de um revólver de alto calibre ele não tremia. O motorista nos acalmou com a palavra de ordem que hoje domina o Brasil: fiquem calmos. 

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Embora tenha passado perto da morte por assassinato, meu caso é normal(!!!). Fui poupado do cruel destino da defensora de direitos humanos, a vereadora Marielle Franco, cuja morte não foi aleatória, mas programada.

Defender a igualdade, como fazia a vereadora, é um crime passível de morte no Brasil. Roubar recursos públicos por meio do controle dos instrumentos de mando e do cargo público (dominando os fatos), porém, pode levar no máximo a prisões domiciliares.

A nossa orientação cultural está definitivamente do lado da desigualdade e do privilégio. Opor-se à injustiça está - quero crer - mudando, mas continua a ser um tabu. Sobretudo se tal bandeira for levantada por mulheres e negros que ousam desafiar a hegemonia de uma secular cultura de subordinação. 

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O assassinato de Marielle estremeceu minha alma. Ser lembrado que Marielle fez seus estudos de sociologia no Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, do qual faço parte como professor e pesquisador, e orientada pelo meu querido colega Ricardo Ismael, reacende a esperança de que o ensino honesto e sem má-fé ideológica produz gente com o espírito de uma Marielle, brutalmente vitimada pela violência que ela combatia.

Espero e quero estar seguro de que o assassinato de Marielle tenha o poder de mudar essas rotinas de violência e de subordinação.

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Metástase é a proliferação descontrolada de células cancerosas, base dos tumores malignos. O assassinato de uma defensora de direitos humanos eleita pelo povo da sua cidade é um atentado à democracia. É também a prova cabal de como a violência tornou-se moeda corrente no Rio de Janeiro e no Brasil. O assalto que viola a propriedade e a vida do cidadão espalhou-se. Virou metástase. 

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Nas últimas décadas - a prova disso é a operação Lava Jato -, o crime mudou de endereço. Passou dos espaços marginais para o centro de uma administração pública cujo modo de operar é a chamada “corrupção sistêmica” - nada mais do que uma metástase. Não há dia no qual não se tenha notícia de um delito cometido por algum alto funcionário ou governante o que é, de fato e de direito, um horror, uma vergonha e um terror - um assassinato brutal da democracia. 

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