Metamorfoses de um performático

Começa hoje a mostra do belga fascinado pelo grotesco e pelas ambiguidades

Maria Hirszman ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2010 | 00h00

Umbraculum. Obra de impacto usa fatias de ossos humanos em esculturas e faz referência a símbolos como poder e religião    

 

 

 

Diversidade de meios e síntese poética: esses parecem ser os dois principais critérios para a escolha das 19 obras do artista belga Jan Fabre que compõem sua exposição itinerante pela América do Sul, iniciada há dois anos no Chile e que chega ao Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. A mostra passeia pelos grandes temas, materiais de predileção e associações recorrentes na produção do artista, propondo uma espécie de resumo amplo de sua trajetória. Com mais de 30 anos de carreira, Fabre é um dos grandes nomes da arte contemporânea europeia - e não apenas no restrito campo das artes visuais, mas também com uma sólida e polêmica trajetória na cena teatral -, mas só expôs antes no Brasil em 1991, participando da 21.ª Bienal de São Paulo.

Talvez a expressão mais utilizada para definir a obra de Fabre seja "metamorfose". Não necessariamente por seu fascínio com o mundo dos insetos (as carapaças dos escaravelhos, com sua rigidez protetora e seus sedutores tons de azul e verde, estão entre suas matérias-primas prediletas), mas em função de uma certa ambiguidade em sua obra, uma transitoriedade permanente entre campos opostos, como beleza e repulsa, interioridade e exterioridade. "A imagem transcendente do mundo de Fabre incorpora diferentes temporalidades, que se encontram em um tempo presente: ao mesmo tempo que dão conta da impossibilidade de localizar essas temporalidades em um único ponto, também falam da impossibilidade de fechar em compartimentos excludentes conceitos como sujeito e mundo, interior e exterior", explica a curadora da mostra, Beatriz Bustos.

Como é possível, Fabre mescla um forte apelo à sensualidade com um fascínio pelo grotesco. Concebe, por exemplo, um arremedo de festim, associando cachorros empalhados (segundo ele animais abandonados, vítimas de atropelamento e outras vicissitudes) a feéricos enfeites de festas infantis. A instalação Carnival of the Dead Steetdogs, uma das primeiras que o artista faz com animais empalhados, é um carnaval, lúgubre, sombrio. E belo. Ele também mescla referências à intimidade mais absoluta - lançando mão de fluidos pessoais como sangue e esperma como materiais de desenho (ver obras como Sperm of the Parrot e My Body, My Blood, My Landscape, ambas de 1978) a um interesse permanente por questões históricas e filosóficas.

Uma das obras mais antigas da exposição, a escultura Me Dreaming, de 1978, retrata o próprio artista sentado à mesa, diante de um microscópio, como que concentrado em algum desafio, ou sonho, como sugere o título. Recobertos de tachinhas douradas, a figura do homem e todos os objetos presentes criam um misto de atração e repulsa; uma carapaça protetora e ameaçadora. Um outro detalhe da peça chama atenção: os pedaços de presunto cru amarrados nas pernas do homem, da cadeira, da mesa. É como se o artista repetisse, mais uma vez, a inversão entre o interior e exterior, deixando à mostra - por trás da carapaça - o interior de carne sanguinolenta. Não deixa de ser uma maneira de explicitar que o sentido da vida se expressa não apenas no ser humano mas naquilo que o cerca.

Outra obra de grande impacto, que participou da antológica exposição do artista há dois anos no Louvre, é Umbraculum, a Place in the Shadow to Think and Work (Um Lugar na Sombra para Pensar e Trabalhar), de 2001. A escultura, que dá título à mostra, recria com fatias de ossos humanos um traje que parece de um monge - ou monja -, inserindo-o num contexto bizarro de aparelhos para deficientes, lâminas de serra, etc... Além da evidente referência a símbolos entrecruzados de poder e religião - o termo umbraculum, que dá título à mostra, designa tanto uma espécie de guarda-sol, usado como atributo papal, como um molusco marinho -, a instalação brinca com um tipo de inversão bastante presente na produção de Fabre: ressituar o esqueleto humano não mais como estrutura mais íntima, mas como carapaça.

Há nessas obras tridimensionais de maior impacto uma evidente inter-relação com sua experiência teatral, apesar de Fabre afirmar que as artes visuais e as cênicas são meios distintos e que não há nenhuma inter-relação entre suas peças de teatro, trabalhos performáticos e obras visuais. Na verdade, Fabre transita com tranquilidade pelos mais diferentes meios e operações, indo do mais simples desenho a uma série de trabalhos em DVD. Muitas vezes é do contraste entre essas linguagens que ele obtém a atenção do observador. Também são bastante impactantes seus trabalhos em grande escala, como a ocupação do suntuoso salão do palácio real de Bruxelas com escaravelhos (instalação que consumiu três anos de trabalho e 1,4 milhão de cascas do animal) ou quando pinta a fachada de um palácio em Salzburg com tinta de caneta Bic, transformando tanto a fachada como a imagem de seu reflexo no espelho d"água em poesia visual.

QUEM É

JAN FABRE

ARTISTA MULTIMÍDIA

Nascido em Antuérpia (1958), é escritor, cineasta, dramaturgo, coreógrafo e designer belga. Dono de obra de impacto, é atraído pelo que chama de "investigações pelo interior do humano". A primeira obra cênica foi criada aos 22 anos. Aos 29, estreia um balé de noite inteira e aos 30 lança a primeira ópera.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.