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Metáforas de um concerto

A história da obra de Tchaikovski que está no centro do belo filme de Radu Mihaileanu

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2011 | 00h00

"Esta noite, enfim, fui tomado pelo fogo de uma inspiração inesperada", escreveu Tchaikovski em uma carta de março de 1878, quando vivia retirado na Suíça. "Sou incapaz de ignorar este desejo de escrever um concerto para violino." Três semanas mais tarde, a peça estava pronta. E logo se tornaria um dos pilares do repertório para o instrumento, indissociável do ideário romântico e recuperado diversas vezes pelo cinema ao longo do século 20. A mais recente em O Concerto, de Radu Mihaileanu, em cartaz nos cinemas do País.

A obra é um dos personagens principais do filme. Nele, um maestro russo e seus companheiros de orquestra, banidos pelo comunismo, passam por todo tipo de adversidade para finalizar no início do século 21 uma apresentação interrompida décadas antes por um líder do partido. No programa, estava justamente o Concerto para Violino de Tchaikovski, que encarna o desejo do maestro de, ao lado da solista, encontrar a harmonia completa entre música e vida, arte e sentimento, a realização plena de um sonho interrompido.

Mihaileanu, obviamente, não está falando só de música. O concerto interrompido serve bem à recriação de temas caros ao cinema do diretor: os ideais traídos e uma tentativa de acerto de contas com o stalinismo. Do ponto de vista musical, o filme passa de leve também pela realidade dos músicos russos que, depois do fim da Guerra Fria, sofreram com a falta de apoio oficial, deixando o país em busca de melhores salários ou simplesmente abandonando a profissão.

Mas, em meio a tudo isso, há o concerto de Tchaikovski. A peça foi escrita em um dos momentos mais conturbados da vida do compositor. Em 1877, poucos meses depois de ter recebido uma carta amorosa da desconhecida Antonina Milyukova, ele resolve casar-se com ela, numa forma de pôr fim aos boatos relativos a sua homossexualidade. Mas o plano não dá muito certo, revelando-se um tormento físico e emocional para o compositor: três dias depois do casamento, em carta ao irmão, ele descrevia a "repulsa" provocada nele pelo corpo da mulher; resolve fugir, tem um colapso nervoso e tenta o suicídio.

Os médicos, enfim, lhe recomendam que nunca mais volte a se encontrar com sua esposa - e que parta para um retiro. É assim que ele vai parar na Suíça, em um asilo próximo ao Lago Genebra. Lá, aos poucos, a inspiração retorna e, além do Concerto para Violino, ele escreve outras obras que figurariam entre suas principais criações, caso da Sinfonia n.º 4 e a ópera Eugene Onegin.

Musicalmente, o concerto é uma pedra no sapato de qualquer grande violinista - isso desde sua estreia. A escrita do compositor afastou até mesmo o solista que deveria fazer a estreia da obra, Leopold Auer. O concerto era simplesmente difícil demais. Anos mais tarde, Auer explicaria em seus diários que o problema não era a dificuldade em si mas o fato de que ela sugeria um descompasso entre a sensibilidade do compositor e a lógica interna do instrumento. A questão, enfim, não era técnica, mas estética.

O tempo, porém, fez o favor de desmentir o violinista. Desde as primeiras décadas do século 20, a versão revisada pelo próprio Tchaikovski tornou-se não apenas uma das obras mais queridas do repertório romântico como um teste para qualquer instrumentista. O desafio que ela coloca, basicamente, é a maneira de encontrar em meio ao virtuosismo exigido pelo compositor a leveza e a espontaneidade de sentimentos que estão no cerne de sua inspiração.

Nesse sentido, entre técnica e inspiração, a peça, no filme de Mihaileanu, é a metáfora ideal para a relação daqueles músicos com sua arte, encarnada na cena do concerto, clímax da narrativa. Há um quê de melodrama na resolução encontrada pelo diretor, é verdade. Mas Tchaikovski provavelmente não se incomodaria.

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