Metáforas de Rebecca

Autora de 'Grand Central' une morte e desemprego, desejo e perigo nuclear

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2013 | 02h14

Léa Seydoux, a Mademoiselle Gaumont do cinema francês, é herdeira da grande companhia produtora e exibidora. Tem gente que jura que é por isso que Abdellatif Kechiche está colhendo um vendaval de críticas na França, após a apoteose de Cannes, quando A Vida de Adele ganhou a Palma de Ouro, em maio. Agora, os críticos o acusam de abuso das atrizes, e de Léa, em especial. Há um subtexto - talvez - nessa história. Kechiche é árabe e Léa, uma princesa loira. Ninguém reclamou dos maus tratos à cubana de Vêns Negra, no filme anterior do diretor.

Léa é um vulcão de sensualidade em A Vida de Adele, como foi em Adeus, Minha Rainha, de Benoît Jacquot. Ambos os diretores reivindicam a liberação do furacão sexual. Em Paris, após Cannes, a própria Léa ironizou: "Eles dizem isso, é? Mas não foi. Na vida nem na tela." Mas pode ter sido muito bem umas mulher quem operou o milagre, Rebecca Zlotowski. Em 2011, ela dirigiu Léa Seydoux em seu primeiro longa, e Belle Épine não apenas ganhou o prêmio Louis Delluc, para autores principiantes, como candidatou Léa ao César, o Oscar francês, de meilleur espoir. As duas voltaram a Cannes neste ano. Léa com Kechiche estava na competição. Com Rebecca, na seção Un Certain Regard, com Grand Central, que você pode resgatar na repescagem da Mostra.

Tahar Rahim, o 'Profeta' de Jacques Audiard, faz o protagonista masculino. Vai trabalhar numa usina nuclear. Envolve-se com a sexy mulher de um colega - Léa. "Trabalhava no projeto quando houve o incidente nuclear no Japão", disse a diretora ao repórter, em maio, em Cannes. "Estava na Costa Oeste dos EUA, havia informações de que a nuvem atômica chegaria ali e todo mundo entrou em pânico. As pessoas simplesmente fugiam. Isso me deu certeza da relevância do material que abordava."

Mas, apesar da importância dos temas - o risco nuclear, a sustentabilidade -, seu filme não é sobre isso. "Meu tema é, essencialmente, mais básico, o desejo. O que é mais mortal: a energia nuclear ou uma ligação proibida que detona conflitos afetivos e sexuais?" Mesmo sem se tornar jamais explícita, Rebecca diz que o desafio foi colocar a sensualidade na tela. Ela se diverte - "Quando são homens filmando o sexo, ninguém se preocupa mais com isso. Como sou eu, todo mundo tem curiosidade, como se mulheres não pudessem abordar esse material. Houve gente que me perguntou se não fiquei constrangida ao filmar o corpo de Tahar. Nós, mulheres, já nos liberamos há muito tempo. O sexo deixou de ser tabu."

Mas ela admite que deve muito a seu elenco - "Léa é sensual porque é. Não conseguiria não ser, mesmo querendo. Tahar é um fenômeno. Um macho sensível. O mais interessante é que as mulheres o desejam e os homens se identificam ou se projetam nele. Sentia-me voyeuse filmando as cenas dos dois." Mesmo assim, há críticos que acham que o plot romântico enfraquece a força da crítica de Grand Central. No final, uma mulher contaminada e que perdeu a cabeleira expressa... O quê? Medo da morte ou de perder o emprego? Rebecca Zlotowski desabafa - "Que bom que você notou. Não é muita gente que percebe o detalhe, ou que o considere relevante a ponto de ser debatido. Mas, assim como há uma metáfora entre o perigo e o desejo, há outra entre a morte e o desemprego. Para muita gente, na Europa atual, perder o emprego é pior que a morte." Seu filme tem, como se diz, camadas. "Espero. Coloquei muita coisa no filme. Agora, é com o público e a crítica."

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