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Metafísica do beijo

Beijamos homens e mulheres no rosto rotineiramente. Judas deu em Cristo um beijo no rosto sinalizando a mesma traição com a qual osculamos um monte de pessoas sem nenhum desejo

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 03h00

Quando eu dei e recebi o meu primeiro beijo, meu professor de Filosofia disse: “O beijo na boca é uma cosmoprática intensa. O beijo é metafísico... Num beijo, bocas das quais entram e saem tantas coisas fundamentais – o ar, o berro primordial, o leite materno, a água e a comida; as ordens, preces, os juramentos, as desculpas, a poesia e o canto – são prazerosamente fechadas por outras bocas e só os que se deixam unir por lábios aflitos e curiosos num beijo sabem esse doce linguajar chamado amor. O beijo na boca – terminava o mestre – é o ato mais enigmático e belo que realizamos. Ah! Roberto. Você está perdido...”. 

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Estes tempos de insensatez, horror e enfermidade me levam a comentar o susto dos participantes do programa BBB diante de um beijo entre dois homens. Tal estranhamento entre esses disputantes voluntários de um simpático campo de concentração sadomasoquista – cuja inspiração é o Big Brother despótico do famoso 1984, a distopia de George Orwell – só pode ser compreendido quando nossas consciências deixam ver uma enraizada homofobia

Homofobia cujo marco singular é, sem dúvida, a peça de Nelson Rodrigues escrita nos anos 60, O Beijo no Asfalto. Um extraordinário, satânico e fascista diálogo entre preconceito, prestígio midiático e má-fé – esses traços que irmanam os que têm o poder de manipular pessoas e opiniões, sobretudo neste Brasil de analfabetos e arrogantes. Nela, um atropelado, à vista dos que apreciam inertes a sua dor (como, aliás, até hoje é o caso), implora por um beijo que lhe é humanamente concedido por uma testemunha. 

Como se trata de um beijo na boca entre homens, esse beijo, obviamente transcendente, passa a ser a matéria-prima manipulada por um jornalista ambicioso e um fascistoide delegado de política.

O beijo na boca entre homens foi, na peça de 1960, uma anormalidade e é, hoje, um ato que surpreendeu um grupo disposto a ultrapassar todos os preconceitos.

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Impossível não notar que um programa situado nos limites dos encontros humanos, uma experiência que junta um grupo de voluntários desconhecidos que se isolam numa “casa” e ali são submetidos a provas, realiza um experimento radical. Na casa, vivem-se relacionamentos imprevisíveis numa disputa que elimina um a um os “jogadores”. 

Inevitavelmente, a casa do BBB reproduz a “casa” brasileira, em paralelo às circunstâncias de uma “rua” marcada pelos imprevistos destinados a promover antipatias e simpatias.

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Mas apesar de todas essas “aberturas” que distinguiriam gente quadrada como eu e os progressistas sociais, o beijo romanticamente sensual entre dois competidores homens foi desafiador em meio a criaturas dispostas a todos os inesperados. Tudo pode acontecer se o Big Brother assim ordenar? Sim e não. Mas entre o sim e o não existem velhos (e escondidos) brasileirismos como o machismo falocrático com as suas graduações que vão do aceitável ao abominável – algo fora do lugar. 

O beijo na boca perturba por sua metafísica. Pelo que ele é, sinaliza e implica. Beijamos homens e mulheres no rosto rotineiramente. Judas deu em Cristo um beijo no rosto sinalizando a mesma traição com a qual osculamos um monte de pessoas sem nenhum desejo. Beijos secos e de lábios bem fechados no rosto, na mão ou na testa, são beijos que demonstram submissão e formalidade – bem como respeito e solidariedade. São beijos sem alma porque não entram no outro anulando conotações sensuais. 

Entre os antigos romanos havia três tipos de beijos: o basium, trocado entre conhecidos; o osculum, dado apenas em amigos íntimos; e o suavium, que era o beijo dos amantes. Os imperadores romanos permitiam que os nobres mais influentes beijassem seus lábios, enquanto os menos importantes tinham de beijar suas mãos. Os súditos beijavam apenas seus pés.

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Beijos na boca são emblemas. Eles, como os ritos de passagem, sinalizam crises de vida. Romances e tragédias começam ou terminam com beijos na boca. Beijos são chaves para trocas corporais profundas e, em alguns casos, quase cirúrgicas. 

O beijo final e o beijinho do começo são os grandes marcos de um estilo, definição e realização da sexualidade e, ao mesmo tempo, o sinal de como o amor é múltiplo. 

O beijo é um indicador de intensidades e relacionamentos. Vi um vizinho dar um beijo na empregada. Beijou na boca ou no rosto como os heróis malfadados de Nelson Rodrigues? Se há um beijo na boca, há algo... Esse beijo é o fulcro do drama. Talvez, quem sabe, porque boca não tem sexo: é somente boca. 

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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