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Meta de vida

Queria ser para algum ser humano a mesma coisa que dona Rita, minha avó, é para mim

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

27 Maio 2018 | 02h00

Quando me perguntam qual minha meta na vida, muita coisa passa pela minha cabeça. Escrever um romance que marque sua época, seja traduzido para 17 idiomas e adaptado para o cinema. Que minha tese de doutorado seja utilizada pela Organização Mundial do Comércio e pela Organização Internacional do Trabalho como ponto de partida para um novo olhar para o mundo. Colocar uma calça jeans e uma blusinha branca e me sentar sem medo do número de dobras que minha barriga vai fazer.

Mas, dentre essas metas, uma, bem mais difícil do que as outras, se destaca. Eu queria ser uma avó igual à minha avó. Queria ser para algum ser humano a mesma coisa que a dona Rita é para mim. Mesmo que eu ainda não tenha colocado um filho no mundo, às vezes me flagro preocupada com que tipo de avó eu seria. Porque para mim só há uma avó possível: dona Rita. Nem mais, nem menos.

Lembro-me que quando me mudei para Lisboa, aluguei um pequeno sótão, que parecia uma casinha de bonecas. Enchi a casa de fotografias, de sapatos, livros e frutas. Comprei louça divertida, coloquei tapetinho no banheiro e almofadas coloridas no sofá. Mas foi só quando liguei para a minha vó por Skype e que sua voz se espalhou pela casa, que aquilo realmente se tornou um lar. Eu quero ser essa voz para alguém.

Quero fazer carne louca. Mesmo que eu seja o tipo de pessoa que erra até no peito de frango no forno, quero saber fazer carne louca para os meus netos. Também quero fazer geleia de morango. E spaghetti com brócolis. E aquela batatinha com creme de leite gratinada no forno. Não quero servir quinoa, salada de alface e atum enlatado para os meus netos. Eu preciso melhorar urgentemente.

Quero receber meus netos com vasinhos de violetas comprados na feira. Com pães de mel cobertos de chocolate. Quero escrever, nos seus aniversários, cartões que serão grudados com durex ao lado do laço e quero que eles, assim como eu, nunca tenham coragem de jogar esses cartões no lixo, deixando-os espalhados pelas gavetas, pelas bolsas e até no porta-luvas do carro.

Eu quero aprender a abençoar alguém. Nunca abençoei ninguém. Quero dizer “Deus te abençoe” com propriedade, tranquilamente, como se essa prerrogativa tivesse nascido comigo. E, ao mesmo tempo, pedir um chope bem gelado para o garçom da pizzaria. Quero ser como ela, uma ponte direta com o que há de mais divino, sem nunca precisar tirar os pés do chão e sem nunca deixar de parecer humana.

Quero comprar guaraná porque “os netos vêm amanhã”. Não quero ser uma avó cujo tempo seja escasso. Nada é mais desarmônico do que “tempo escasso” e “avó”. Quero ser uma avó com calma, com colar de bolinhas azuis, com óculos de grau e com suco de caju. Quero ser dona Rita, até nos joanetes. Quero ser dona Rita, como quis ser poucas coisas na vida.

E vou espalhar dezenas de porta-retratos pela sala. Um com meu casamento, um com uma linda foto do meu marido, um com a gente e os filhos pequenos, outro com a gente e os filhos grandes. Passados esses quatro, todos os outros terão netos. Cada neto com pelo menos 8 ou 9 aparições pelos cantos da sala.

Quero, já com a audição reduzida, gritar “OLÁÁÁ MEUS QUERIDOS!!!” quando os ver. Quero dar abraços lentos com cheiro de lavanda, quero beijá-los na testa e nas bochechas, deixando sempre uma bela marca de batom. Quero enrolar os brigadeiros, um por um, quando chegarem os seus aniversários. Mesmo que eles já sejam adolescentes. Mesmo que eles já sejam adultos.

E quero, acima de tudo, que a palavra avó tenha para eles exatamente a mesma conotação que tem para mim. De lar, de conforto, de certeza, de sorriso e de devoção. Há quem seja devoto de Santa Rita de Cássia, eu sou fiel devota de dona Rita de Cássia. Minha fé, minha sorte, minha bênção e minha imensa gratidão perante a vida.

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