Met mostra a importância da Escola de Paris

Visitar alguns museus nova-iorquinos é comprovar, centenas de vezes, que toda a arte do século 20 se formou em Paris. Mas a maior reverência americana à importância da capital francesa para as artes plásticas dos últimos cem anos está nas sete galerias do Metropolitan Museum que exibem Painters in Paris: 1895-1950. A exposição, aberta em março, deveria fechar no fim de dezembro, mas foi prorrogada até domingo. Entre fauvistas, cubistas ou surrealistas, Painters in Paris é um imenso panorama do desenvolvimento da pintura na França, desde os últimos anos do século 19 até pouco depois da 2.ª Guerra Mundial. No total são 105 obras, todas pertencentes ao acervo do Metropolitan. A exposição é um show de muitos Bonnards, Braques, Dubuffets, Matisses, Modiglianis, Picassos e mais 30 artistas de diversas nacionalidades, grandes nomes da chamada Escola de Paris. De todos eles, apenas Balthus, com quatro quadros na exposição, ainda está vivo, aos 92 anos. Painters in Paris: 1895-1950 é formada por obras que passaram para o acervo do Metropolitan, por aquisição ou doação, entre 1947 e 1999. Entre os trabalhos expostos há 13 quadros incluídos na lista apresentada pelo museu com mais de 300 pinturas européias que não têm informações completas quanto à proveniência. Isso significa que elas precisam ser mais bem pesquisadas para eliminar a possibilidade de um temeroso passado na mão dos nazistas que saquearam colecionadores durante a 2.ª Guerra. Em Painters in Paris, o curador William S. Lieberman, chefe do Departamento de Arte Moderna do Metropolitan, instalou as obras cronologicamente, mas incluiu justaposições de temas e afinidades estéticas. Na primeira sala, por exemplo, encontram-se obras realizadas na última década do século 19 por Maurice Denis - o teórico dos poetas e pintores que se chamavam de "Nabis" (profetas, em hebraico), influenciados pela cor de Paul Gauguin - e seus seguidores Edouard Vuillard e Pierre Bonnard. O predecessor deles todos, Claude Monet, é representado por um trabalho posterior, Reflexos, o Lago de Ninféias em Giverny, de 1920. Da mesma forma, a exposição termina com trabalhos de Georges Braque, Jean Hélion e Fernand Léger produzidos na década de 1940, vistos ao lado de pinturas de Dubufett feitas muitos anos antes. A expressão francesa L´École de Paris é aplicada para pintores e escultores estrangeiros que eram mais ou menos da mesma geração e trabalharam na França antes e durante a 1.ª Guerra Mundial. Muitos desses artistas vinham do Leste Europeu. Entre eles havia, principalmente, expatriados judeus que tinham rejeitado a proibição ortodoxa de reproduzir imagens da vida real. A primeira pintura da Escola de Paris a ser incluída no acervo do Metropolitan foi o retrato da escritora americana Gertrude Stein feito por Picasso em 1906 e doado ao museu pela própria retratada. O quadro, exibido na segunda galeria da exposição, também foi a primeira obra do artista espanhol a entrar para a coleção do museu. É um ícone da arte do século 20. Segundo a escritora, ela posou para o pintor perto de umas 90 vezes. Um dia, muito irritado, ele largou os pincéis e deixou a pintura como estava, dizendo que não agüentava mais olhar para a modelo. Depois de umas férias fora da França, Picasso completou o quadro sem ver Gertrude outra vez. O estilo do corpo e das mãos é diferente do usado no rosto, que reflete o estudo de máscaras e esculturas africanas que Picasso vinha fazendo na época. Alguém comentou que Gertrude não se parecia com o retrato e o artista retrucou: "Ela vai parecer." O cubismo e a parceria entre Picasso e Braque, seus originadores, destacam-se na terceira galeria, entre várias naturezas-mortas deles e de outros pintores. A Natureza-Morta com Par de Bandeirinhas, de Braque, e a Natureza-Morta com uma Garrafa de Rum, de Picasso, parecem um par. As duas foram pintadas no mesmo lugar e na mesma época, no verão de 1911 em Céret, nos Pirineus franceses. Com letras da palavra "torero" e um par de bandeirinhas cruzadas, Braque confirma a aliança artística com o amigo espanhol. Picasso, um dos mais produtivos artistas plásticos do século 20, é o que aparece com o maior número de obras na exposição: 22. Um grupo de suas pinturas pré-cubistas inclui Arlequim, de 1901, típico de sua fase azul, e O Ator (1904-05), exemplo da sua transição entre os períodos azul e rosa. Essa é uma das telas incluídas na lista das obras do acervo do Metropolitan que precisam de mais pesquisas sobre a procedência. Homenagem - Painters in Paris revive a fase francesa de muitos artistas europeus e americanos, como a do mais destacado pintor mexicano de murais, Diego Rivera. Ele também trabalhou em Paris, de 1911 a 1920, e suas primeiras composições cubistas são consideradas entre as melhores pinturas que fez no cavalete. Na exposição, Rivera é lembrado por uma natureza-morta de 1915, cujo tema é uma mesa no terraço de um café parisiense. Um pouco antes e durante a 2.ª Guerra Mundial, muitos dos proeminentes artistas europeus buscaram refúgio nos Estados Unidos. Entre eles estavam Fernand Léger e Jean Hélion, que voltaram para a capital francesa depois da guerra. Apesar de Painters in Paris focalizar o período entre 1895 e 1950, o curador escolheu como epílogo da mostra uma grande pintura de Hélion completada em 1961 e representando os Jardins de Luxemburgo, um dos fantásticos cenários parisienses. É uma delicada homenagem à cidade que mais inspirou a arte mundial nos últimos cem anos.

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