Mestres do surrealismo desembarcam no Rio

O surrealismo chega hoje ao Rio de Janeiro. Cerca de 400 obras do movimento que surgiu entre as duas guerras mundiais do século passado e mudou a forma de conceber arte, sociedade e política, vão estar expostos durante dois meses no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). A mostra é o foco de uma série de eventos que vão de palestras explicando o que é e como aconteceu o movimento e passam por atividades pedagógicas, ciclo de filmes, lançamento de livros e happenings.O próprio CCBB mudou sua aparência, pois as janelas e a rotunda foram pintadas no estilo de René Magritte, um dos papas do movimento, e um enorme peixe cor de rosa, símbolo presente nos manifestos divulgados na época, foi montado na porta principal, como chamariz para o público. "Não estamos comemorando data, mas sim o maior evento surrealista já produzido no Brasil e na América Latina", explica o responsável pela exposição, Romaric Suger Büel, que foi adido cultural da França no Rio e já trouxe para cá mostras de Monet e Salvador Dalí.A exposição terá 11 blocos, que explicam o movimento cronológica e tematicamente. "O surrealismo surgiu em conseqüência da 1.ª Guerra Mundial e numa rebelião contra a sociedade herdada do século 19. Seu mentores eram personagens típicos desse período", ensina uma das curadoras da mostra, Denise Mattar. "Todos eles participaram do conflito e dele saíram arrasados com a perda de suas convicções. O progresso no qual acreditavam era capaz de produzir os horrores da guerra. Para mudar a sociedade, era preciso partir do indivíduo."Büel acrescenta que o movimento foi influenciado também pela psicanálise, que introduzia novos conceitos nas artes e ciências. "Pela primeira vez se falava em inconsciente, indivíduo, criticavam-se instituições como a família e a Igreja, temas banais nos dias de hoje", lembra. Tanto que, no ano passado, os londrinos montaram uma exposição sobre as relações de Freud e os surrealistas na Tate Gallery, intitulada Desire Unbound, que foi o maior sucesso entre setembro e dezembro do ano passado, que poderá ser vista, a partir de janeiro próximo, no Museu de Arte Moderna de Nova York."Além disso, a produção artística dos países periféricos, até então ignorada, começou a chamar atenção e hoje faz parte até de instituições tradicionais." Segundo Denise, isso se dá porque os surrealistas, por problemas políticos ou mera inquietação, vieram para a América, onde conheceram outra mentalidade. "O pensamento racional europeu se contrapôs a uma ´desorganização´ que os fascinou e influenciou", comenta. Embora o surrealismo tenha antecedentes importantes e conseqüências que duram até hoje, os organizadores reduziram a seleção a obras produzidas entre 1924, ano em que André Breton publicou o primeiro Manifesto Surrealista, e 1947 quando ele realiza em Paris uma retrospectiva do movimento. O lado literário será enfatizado por meio de textos explicativos situados entre as obras e exemplares originais dos livros e revistas de época. O cinema terá um festival especialmente dedicado aos títulos surrealistas, que exibirá desde L´Age d´Or, de Luiz Buñuel, dos anos 20, que tornou-se um manifesto filmado, até produções mais recentes, que trazem a marca do movimento, embora a princípio não sejam identificados com ele. "É o caso de Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade", adianta o responsável pelo evento cinematográfico, João Luiz Vieira. As obras chegaram ao Rio na semana passada, vindas museus, coleções particulares ou instituições culturais espalhadas pelo mundo. Uma verdadeira operação de guerra, já que a montagem, por exigência das companhias de seguros e dos proprietários, segue um ritual complicado (desde a necessidade de esperar 24 horas antes de abrir a embalagem até a necessidade da presença de representantes legais dos envolvidos com a operação). Os módulos foram organizados de forma a contar uma história, para não serem simplesmente um amontoado de quadros e peças de arte conhecidas, ressalta a diretora artística do CCBB, Marta Pagy. "Esperamos um público de 500 mil pessoas, com uma estratégia para apreciar a mostra com conforto", acrescenta. Esse público vai ver ícones como Le Piano Surrealiste, guache de Salvador Dali, feito como storyboard de um filme de mesmo nome dos irmãos Marx, que nunca chegou a ser realizado; Pueblo Cansado, óleo sobre tela de Max Ernst, um auto-retrato de Man Ray; Le Gouffré Argenté, de Magritte, e ainda um Cadavre Exquis de André Breton, Valentine Hugo, Tristan Tzara e Knuskon. Esta última, uma experiência comum na época, que consistia em um artista começar a obra e outros prosseguirem. O nome, em português, Cadáver Delicioso, também era aleatório, pois sorteavam-se palavras para servirem de títulos. Mesmo quem não tem maior relação com artes plásticas, literatura ou cinema - os principais veículos do surrealismo - vai sentir certa familiaridade com a exposição. Isso porque o movimento revolucionário foi tão ao encontro dos anseios do público e, em alguns casos, fez tanto sucesso, que seus princípios estão incorporados no cotidiano até hoje. "Eles introduziram o conceito do happening, do objeto como obra de arte, da criação coletiva, da arte espontânea. A própria fotografia e o cinema, então considerados formas de expressão menores, ascenderam à condição de arte", lembra Denise. Visão local - No Brasil, o surrealismo não teve a mesma importância em seu período mais fértil porque aqui buscava-se uma afirmação da nacionalidade que era o contrário da internacionalização proposta pelo movimento. No entanto, artistas importantes como Ismael Nery, Alberto Guirnard, Cícero Dias e Tarsila do Amaral sofreram sua influência e obras com essa marca foram reunidas em um dos módulos. "No caso de Tarsila, conseguimos exibir dois óleos importantíssimos, Lua e A Cuca", diz a curadora, responsável pelo segmento. "Este último nunca tinha vindo ao Brasil. Foi pintado na França e adquirido pelo Museu de Grenoble", conta. Há ainda uma sala inteira dedicada à escultora Maria Martins, musa de André Breton, cuja obra no Brasil chamou mais atenção pelo exotismo que pela qualidade. Num tempo em que a arte brasileira se debatia entre o academicismo e o modernismo, ela era uma opção inesperada, mais fácil de ser compreendida e assimilada nos dias de hoje. Tal como os europeus, Maria Martins é pouco conhecida dos brasileiros, embora ela tenha influenciado artistas de sua época e posteriores - o que amenizou o estranhamento que causava nos seus contemporâneos. Além da exposição, dos filmes e palestras, a mostra do surrealismo terá uma parte pedagógica intitulada Laboratórios Surreais de Criação, com oficinas de fotografia, desenho, colagem, texto e assemblage. Alunos de 1.º e 2.º Graus visitarão a mostra pela manhã e depois produzirão seus próprios trabalhos, orientados por equipes coordenadas por Guilherme Vergara. Aos sábados, haverá ainda visitas guiadas por artistas, que abordarão as obras com enfoques variados. Até o horário de funcionamento do CCBB foi mudado. A instituição que estava funcionando a partir das 13 h desde junho, em função do racionamento de energia, volta a abrir às 12 h, com o auxílio de um gerador. O investimento total fica em torno de R$ 1,8 milhão, bancados pelo CCBB e pela BrasilCap, empresa ligada ao Banco do Brasil.

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