Mestre Lloyd

Saxofonista de 74 anos vem com banda all stars ao Brasil, e fala ao Estado da angústia de viver num mundo que vê em franca desumanização

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2012 | 03h09

Aos 74 anos, o saxofonista Charles Lloyd sempre se ocupou de dar um sentido amplo e irrestrito à palavra "mestre". Não só porque, como olheiro de futebol, ajudou a revelar gênios do jazz (como o pianista Keith Jarrett e o baterista Jack DeJohnette), mas sobretudo porque se empenha em combater as injustiças do seu tempo. Já viveu exílio voluntário, longe dos EUA, por não concordar com a forma como são conduzidas as políticas internacionais americanas.

"Ainda sou um sonhador. Quero mudar o mundo com a beleza da música", disse o músico, em entrevista ao Estado. Ele foi um dos primeiros grandes jazzistas a demolir fronteiras entre gêneros. Grandemente influenciado por John Coltrane, admirado por gerações de jovens prodígios, ele desembarca no Brasil no início de junho como convidado do BMW Jazz Festival. Sua banda é de babar na mesa: o pianista é ninguém menos que Jason Moran (para muitos, o maior da atualidade; leia entrevista com ele na pág. D3). Além de Moran, estão na banda de Lloyd o baixista Reuben Rogers e o baterista Eric Harland.

Ouvindo o disco mais recente de seu quarteto, vejo que há uma música, Desolation Sound, que parece bossa nova.

(Risos) Estou rindo por essa canção ter tocado você assim. Não foi planejado, só aconteceu, porque amo demais sua música, amo compositores como Gilberto Gil, Caetano Veloso, e mesmo Bidu Sayão, esse tipo de som. Muito da música brasileira tem me impressionado por muitos anos. Fui muito influenciado pela música de Villa-Lobos, o compositor das Bachianas Brasileiras.

Ornette Coleman disse, no documentário The Monk and the Mermaid, que o senhor busca, com sua música, contribuir para melhorar a qualidade de vida do mundo. O que achou disso?

Sou muito honrado que ele tenha dito isso. Sempre o amei. Ornette e eu crescemos juntos, artisticamente, em certo período de tempo. Acompanhei todo seu esforço, todo seu sofrimento e ele, o meu. É maravilhoso quando ele fala assim sobre mim.

Recentemente, morreu o baterista Paul Motian, um dos grandes do jazz.

Ele era um espírito livre. Ele tocou brevemente comigo nos anos 1960. Não o encontrei recentemente. Fiquei muito triste com sua morte, deixou uma linda contribuição. Quando você disse o nome dele, eu não entendi direito de cara, entendi Emotion. Esse seria um ato falho que o deixaria enormemente feliz, adotaria. Também fui grande amigo de Scott LeFaro, e tocamos juntos no Village Vanguard, na época em que ele e Paul integravam o Bill Evans Trio. Mas havia tempo não nos víamos, minha última comunicação com Paul Motian foi provavelmente na festa de meu septuagésimo aniversário. Ele foi um dos caras especiais do jazz.

O senhor fez um disco na Grécia, com a cantora Maria Farantouri e seu quarteto. A Grécia está no epicentro, atualmente, de uma grave crise econômica. Como isso tudo o toca?

É muito tumultuoso para meu coração e minha mente. Essa crise causada pelos bancos ao redor do mundo é muito avassaladora. Toda a arena política... É muito difícil conseguir, neste momento, que a política aja com sabedoria. Há todos esses lobbies interferindo, cortam-se benefícios, há a violência policial para impedir a livre manifestação. No fim, as pessoas sempre vão sofrer mais, porque não há um nível de humanismo nessa crise. Ainda tenho a esperança de que surja alguém no meio dessa arena, um sábio, alguém com serenidade para dar um basta. Sou um humanista, amo gente. A crise na Grécia me abala especialmente. Tenho ido àquele país por mais de uma década, e tenho grandes amigos lá. Maria Farantouri é uma das minhas grandes amigas. Há 12 anos nos conhecemos em Santa Bárbara, Califórnia. É uma artista especial, me toca como um dia me tocou Billie Holiday, quando eu era criança. Ela é uma lutadora pela liberdade. Lutou contra o arbítrio em seu país nos anos 1960, foi exilada em Londres. Eu mesmo fui um exilado em meu próprio país. A forma como banqueiros e políticos manipularam todos nós espalhou os problemas, porque não há mais transparência, não podemos ver o que está por trás das crises. Você põe seu dinheiro em um banco e eles o usam para fazer suas negociatas e quando você vai buscá-lo ele não existe mais.

E como o senhor vê as reações, tipo o movimento Occupy ao redor do mundo?

É óbvio que a humanidade está sofrendo, e é maravilhoso ver que as pessoas se mobilizam para dar um passo adiante. Também é ótimo que não hajam lideranças evidentes, porque fica mais difícil escolherem um líder para crucificar. É algo que nos afeta a todos, e acho que é menos de 1% que controla tudo. Quando eu era menino, em Memphis, Tennessee, meus avós viviam no Mississippi, e eles tentaram nos preparar para que nos tornássemos melhores do que todo mundo, porque queriam que a gente combatesse um sistema corrupto. Aquelas ideias de liberdade e maravilhamento estão no princípio do jazz. Comecei então a ouvir as pessoas que criavam essa música: Louis Armstrong, Duke Ellington, Lester Young, Charlie Parker, todos os grandes músicos. São os caras com que quero ser associado. Thelonious Monk, Miles. A música é muito linda e as pessoas precisam disso para que algo aconteça em seu espírito, seu coração. O mundo está como um cachorro que tem o rabo em forma de círculo: você pode endireitá-lo, mas ele volta ao mesmo lugar porque você não o terá mudado de fato. Por isso, acho que precisamos de um grande sábio, uma espécie de juiz, que possa arbitrar essa situação. Os Estados Unidos precisam decidir se são de fato uma democracia ou um sistema que funciona só para alguns poucos. E o que posso fazer é minha música, tentando trazer beleza ao mundo. Essa é minha filosofia. Ainda sou um sonhador, e meus sonhos são maiores que minhas memórias. Continuo a seguir em frente porque sou abençoado de ter conhecido grandes músicos, e de ter tido a honra de grandes músicos terem vindo em busca de minha música. Olho para tudo e digo: estou em serviço. Estou operante, fazendo minha contribuição, como disse Ornette.

Como foi tocar saxofone com os Beach Boys?

Eles todos eram fãs da minha música. Também compuseram grande música, grandes harmonias. Esse Brian Wilson é um gênio. Durante meu período de exílio, nos tornamos grandes amigos. Eles foram de muita ajuda quando eu estava sem perspectiva. Vieram até mim, abriram seus tesouros e nos tornamos íntimos. São idealistas, seu conceito também é mudar o mundo pela beleza da música. Gosto de toda música. Sou amigo de Bob Dylan, fui amigo de Jimi Hendrix, Grateful Dead, Jefferson Airplane. Estivemos juntos no programa do Filmore Festival, nos anos 1960, e eles me procuraram em busca de inspiração para o improviso. Especialmente o Grateful Dead, que começou a fazer longas improvisações após o encontro.

Que semelhança o sr. vê entre Maria Farantouri e Billie Holiday?

Quando eu era criança, ouvi Billie Holiday e parecia que ela estava cantando só para mim. Tive vontade de casar com ela e cuidar dela para sempre. Mas é claro que nosso tempo estava em dessincronia, eu só fui tocar em Nova York quando ela já havia morrido. Quando encontrei Maria, tive a mesma sensação. Embora tão diferente de Billie, havia grande profundidade em sua voz, uma humanidade profunda. Ela foi criada por um grande compositor grego, Mikis Theodorakis. Ele ainda vive, está com cerca de 80 anos. Eu e ela fizemos esse concerto na Acrópole e mais de 50 mil pessoas vieram para ouvir um mélange de nossa música. O efeito da arte dela me afetou profundamente.

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