Mestre do violoncelo e da irreverência

Músico e professor húngaro morreu no domingo, aos 88 anos, deixando gerações de alunos e 130 CDs como legado

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2013 | 02h09

"Maestros são as figuras mais supervalorizadas do mundo musical", disse ele quando perguntado sobre suas impressões a respeito de Herbert Von Karajan. "É com certeza mais famoso e popular, mas eu sou o melhor violoncelista", continuaria, na mesma entrevista dos anos 70, agora se referindo a Mstislav Rostropovich. Frases como essas poderiam ser fruto de mero despeito se não viessem de um dos mais talentosos músicos do século 20, o violoncelista húngaro János Starker, morto no domingo, aos 88 anos.

Colegas violoncelistas referiam-se a Starker como um músico para quem não existia dificuldades técnicas - e de personalidade muitas vezes controversa. Em entrevista à rádio pública dos Estados Unidos, um músico americano lembrou de um de muitos episódios folclóricos. "Ele deixou a sala de concerto antes da apresentação quando soube que não poderia fumar um cigarro nos bastidores antes de entrar no palco. Ele sempre fazia isso e, muitas vezes, carregava consigo uma garrafa de uísque para o camarim."

Como professor, era temido - e adorado. "Ele podia ser crítico, exigente, sarcástico e intimidador, mas, se você se esforçasse, ele era inspirador. Impressionava sua determinação em nos dar as ferramentas para que encontrássemos a melhor maneira de fazer aquilo que lhe parecia a coisa mais importante: ter como foco as intenções musicais do compositor. E, além disso, tinha uma regra: trabalhe o máximo de suas habilidades", escreveu ontem Janet Horvath, musicista da Sinfônica de Minnesota e ex-aluna de Starker na Universidade de Indiana. Em sua autobiografia, The World of Music According to Starker, definiria a importância da música em sua vida. "Dizer que a música é uma parte de minha vida significa que eu não posso acordar de manhã e seguir pelos dias sem a música, da mesma forma que não posso viver sem comer ou beber água", escreveu.

Starker nasceu em Budapeste, em 1924. Menino prodígio, fez sua estreia aos 6 anos e, com 8, já ajudava seus professores a ensinar alunos mais novos. Na Academia Liszt, foi aluno de Bela Bartók e Zoltan Kodály. Durante a 2.ª Guerra, foi preso e sobreviveu a um campo de concentração nazista - seus dois irmão mais velhos, ambos violinistas, foram mortos. Deixou a Hungria comunista em 1946 e, dois anos mais tarde, mudou-se para os Estados Unidos. Antes, em 1947, lançou sua primeira gravação, com a difícil Sonata de Kodály, vencendo o Grand Prix du Disque e conquistando fama internacional.

Nos EUA, ele integrou a Orquestra de Dallas e, em seguida, seria o primeiro violoncelo de grupos como a orquestra da Metropolitan Opera House, de Nova York, e a Sinfônica de Chicago. Mas, no final dos anos 50, ele abandonaria o trabalho em orquestra para voltar a se dedicar à carreira de solista. É nessa época, também, que inicia a trajetória como professor da Universidade de Indiana, onde lecionou até o início dos anos 2000.

Seu plano para voltar ao status de solista inclui uma série de gravações - para qualquer selo que estivesse disposto a gravá-lo. Seus primeiros registros, ainda como músico de orquestra em Nova York, foram feitos para o pequeno selo Period, criado por um compatriota húngaro. Em seguida, passou a trabalhar para o Angel, onde conheceu Walter Legge (o poderoso empresário de Karajan) e a para a gravadora Mercury.

Por conta disso, Starker deixa um legado de 130 gravações de cerca de 165 peças. Costumava dizer que seu concerto para violoncelo preferido era aquele nunca escrito pelo compositor Johannes Brahms. Brincadeiras à parte, entre as obras do grande repertório, não parecia haver limite para sua técnica. Em 1997, ganhou o Grammy por sua gravação das Suítes para violoncelo solo de Bach.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.