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Mestre da experimentação

Jorgen Leth fala do autobiográfico O Homem Erótico, que terá sessão com debate

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2011 | 00h00

Jorgen Leth foi chamado de colonialista e acusado de fazer um cinema sujo de velho pervertido. Tudo por causa de O Homem Erótico, seu novo documentário, que teve sessões ontem no Rio e em São Paulo e hoje terá nova exibição na cidade, seguida de encontro com o público. Leth é uma das estrelas do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Ele é um astro em qualquer evento destinado a promover/discutir a cultura do documentário. Amir Labaki, criador e diretor artístico do É Tudo Verdade, dedicou-lhe um filme. O diretor se confessa lisonjeado e feliz por retornar ao Brasil. Quanto aos rótulos, "colonialista" e "velho pervertido", ele confessa: "Não consigo levar a sério".

Filmado em diversos países, incluindo o Brasil, O Homem Erótico investiga o erotismo como uma parte importante, decisiva, da experiência humana. Jorgen Leth não generaliza ao falar sobre o assunto. Ele se inspira nas próprias vivências e viaja o mundo em busca de mulheres com as quais teve experiências íntimas. Como foi o processo de fazer o filme? "O filme é o processo", sintetiza o diretor dinamarquês de 74 anos - nasceu em Arhus, em 1937 -, que mais uma vez investiga a linguagem. Leth é considerado uma das figuras de proa do documentário experimental no mundo. Este é um segmento que está muito bem representado no 16º É Tudo Verdade. Só o Brasil, com os novos filmes de Arthur Omar (Os Cavalos de Goethe) e Carlos Adriano (Santoscópio = Dumontagem e Santos Dumont: Pré-Cineasta?), traz importantes contribuições ao experimentalismo.

Leth prefere falar de busca. Ele tem realizado suas buscas desde os anos 1960, quando se iniciou na carreira. Teve - tem - uma trajetória singular. Jornalista, crítico de cinema e de teatro, é também poeta (com vários livros publicados). Ele estudou antropologia e se considera muito marcado pela influência de Bronislaw Malinowski. No Brasil, ficou amigo de Roberto Da Matta. Seus interesses diversificados incluem a música (o jazz) e o esporte. Leth conta: "Nos anos 1960, devorava os escritos de Grotowski e achava o Living Theatre o máximo". A formação como antropólogo levou-o ao cinema, e ao documentário.

Quando se iniciou, os documentários eram predominantemente voltados a temas sociais - e eram narrativos, informativos. Leth, com suas ideias de vanguarda, insurgiu-se contra isso. Em 1967, fez o curta The Perfect Human, uma espécie de antecipação de suas preocupações estéticas e humanistas. Só para constar, é um dos filmes preferidos de Lars Von Trier, que, em 2003, convidou o cineasta para desenvolver um projeto conjunto. Fizeram The Five Obstructions - cinco retomadas do curta, às quais Von Trier imprimiu um toque particular. Em cada uma delas, havia uma dificuldade a ser superada pelos diretores. "Tem gente que fica paralisada ante as dificuldades. Eu me sinto estimulado." Essa atração pela dificuldade tem a ver com sua paixão pelo esporte. "A grosso modo, o esporte tem a ver com o esforço humano para superar seus limites." Um dos clássicos de Jorgen Leth é A Sunday in Hell, justamente sobre uma partida decisiva.

A pergunta que não quer calar - ele permanece ligado a Lars Von Trier? Sabe alguma coisa sobre o novo filme do diretor, Melancholia, que é dado como certo na competição de Cannes, em maio? "Tenho uma linha direta muito boa com Lars. Ele me convidou para visitar o set. O que vi me animou muito. Acho que será um grande filme." Na quinta, Leth estava em São Paulo, na abertura do É Tudo Verdade. Aqui ficou na sexta e no sábado. Viu alguma coisa que lhe interessou? "Mesmo não sendo um dos melhores filmes de Frederick Wiseman, gostei bastante de Academia de Boxe. Admiro o método dele, o assunto me atrai, recomendo." Leth também destaca sua admiração por dois documentaristas brasileiros, Eduardo Coutinho e João Moreira Salles.

"Há alguns anos estava no júri que premiou Santiago em Miami. É extraordinário." De volta a O Homem Erótico, ele investiga o próprio passado, as mulheres de sua vida. "O registro tem a ver com as lembranças e, até por isso, o filme, como quase tudo o que fiz, fica numa espécie de limite entre documentário e ficção." Nos últimos anos, Leth tem recebido muitos prêmios e homenagens. Que tal? "Afaga o ego. Muitos dos filmes pelos quais hoje me elogiam foram mal recebidos na época. Tenho um numeroso público jovem, e isso é bacana."

HOMEM ERÓTICO

Direção: Jørgen Leth (Dinamarca/ 2010, 90 min.). Cine Livraria

Cultura. Hoje, 19 h. Cinemateca. Dia 10/4, 20 h.

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