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Mestre da cor, Minnelli é tema de mostra em São Paulo

No CCBB, comédias, dramas e musicais que consagraram o pai de Liza

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2011 | 00h00

Ex-marido de Judy Garland, pai de Liza Minnelli - as mulheres sempre foram importantes na vida e na obra de Vincente Minnelli. Graças a uma iniciativa do Centro Cultural Banco do Brasil, é tempo de lembrar o artista que morreu em 1986, aos 74 anos. Há 25 anos, portanto - e no ano que vem comemora-se o centenário de nascimento do diretor que ostenta o título de rei dos musicais. No gênero, mas não apenas nele, Minnelli foi o esteta que deu significado dramático à cor. O verde e o vermelho de Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse foram subestimados no lançamento, em 1961, mas a recente reedição do filme, em cópia restaurada, na França, levou a uma rara unanimidade.

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O melodrama para o qual muitos críticos torceram o nariz, há 50 anos, recuperou sua aura. Melodrama? Putting melos into drama - Minnelli pode ter introduzido a melodia (e os sentimentos) em seus dramas, mas isso não torna Assim Estava Escrito (The Bad and the Beautiful), de 1952, nem Sede de Viver, de 1956, menos poderosos. A obra-prima dramática do autor é Deus Sabe Quanto Amei, com Frank Sinatra, de 1959, como sua melhor comédia é Papai Precisa Casar (The Courtship of Eddie's Father), de 1962, com Glenn Ford e um garotinho que haveria de crescer diante das câmeras e, por trás delas, virou diretor prestigiado, com direito a Oscar no currículo, Ron Howard. As coisas tornam-se consideravelmente mais difíceis quando se trata de apontar o melhor musical de Minnelli.

Aqui, cabe uma digressão. Aos 3 anos, ele subiu ao palco, pela primeira vez, para cantar e dançar. Tornou-se figurinista e, aos 20 anos, já era o cenógrafo oficial do Radio City Music Hall, em Nova York. Aos 40, estreou em Hollywood, na Metro, estúdio no qual desenvolveu quase toda a sua carreira. Fez um filme na Fox, outro na Paramount. O estúdio da marca das estrelas foi a sua casa, e por um bom motivo. Na MGM, o produtor Arthur Freed teve carta branca para montar uma unidade que mantinha sob contrato permanente diretores, cenógrafos, coreógrafos, músicos, todos voltados à realização de musicais.

Agora Seremos Felizes e O Ponteiro da Saudade, de 1944; Iolanda e o Ladrão, de 1946; O Pirata, de 1947. Minnelli já era considerado um ás do musical quando, em 1951, Sinfonia de Paris ganhou o Oscar de melhor filme, mas não o de melhor diretor. A Academia preferiu atribuir a estatueta daquele ano a George Stevens, por Um Lugar ao Sol. Sete anos mais tarde, Minnelli ganhou as duas, de melhor filme e direção, por Gigi. E no intervalo, encheu a tela com seus brilhantes musicais - A Roda da Fortuna (The Band Wagon), A Lenda dos Beijos Perdidos. Um admirador de carteirinha, o crítico francês Jean Domarchi, dizia que Minnelli levou para o musical "uma estilização extrema", "uma vontade estética". O que o autor fez foi algo maior - Minnelli criou uma estética do sonho para, por meio dela, recriar o mundo.

O personagem por excelência de Minnelli é o artista. Preferencialmente, um pintor - ou escritor. O balé final de Sinfonia de Paris beira o sublime. Com An American in Paris, de Ira e George Gershwin, como fundo, Gene Kelly persegue Leslie Caron numa Paris feérica ou fantasmagórica, reconstituída segundo a ótica de diferentes pintores. O sonho retorna na memorável cena de A Roda da Fortuna que João Moreira Salles lembra em Santiago como a preferida do mordomo que tanta influência teve sobre a sua formação. Fred Astaire e Cyd Charisse caminham no Central Park e, de repente, sem que o espectador perceba, eles não estão mais caminhando, e sim dançando.

Em todos esses filmes, a cor é sempre o segredo mais refinado de Minnelli - é graças a ela e ao desenvolvimento da cenografia que o musical se impôs, numa certa época, em Hollywood. A cor segue soberana em Sede de Viver, em que Minnelli recria a tragédia de Van Gogh, culminando na verticalidade soturna dos ciprestes que se elevam sobre a horizontalidade dos campos de trigo e girassóis. Formam uma cruz e é ela que rege o conceito da mise-en-scène no filme que tem Kirk Douglas no papel do grande pintor. É curioso que Minnelli, sempre atento às possibilidades expressivas da cor, tenha se valido do preto e branco na sua (re)visão dos bastidores de Hollywood em Assim Estava Escrito, centrado na via-crúcis do produtor interpretado, de novo ele, por Kirk Douglas.

Todo Minnelli estará em revisão no CCBB. São filmes que realizam uma trajetória não propriamente em busca da luz, mas da consciência. O Glenn Ford que destrói o QG dos nazistas, no inferno de Os Quatro Cavaleiros; a Liz Taylor que usa aquele poncho para se proteger, física e moralmente, quando vai à festa na praia, em Adeus às Ilusões. O culto a Minnelli começou em Cahiers du Cinéma, nos anos 1950. No fim dos 70, a revista decidiu que ele era um "falso autor". O cinema de Minnelli muitas vezes - quase sempre? - foi objeto de análises superficiais, para o bem e para o mal. Ele próprio, trabalhando com um material tão volátil quanto o sonho, faz um cinema de "camadas", profundo a despeito da superfície.

VINCENTE MINNELLI

CINEMA DE MÚSICA E DRAMA

CCBB. Rua Álvares Penteado 112, Centro, tel. 3113-3651. R$ 4. Até 11/9.

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