Mestre andino

Exposição traz 25 fotos inéditas do peruano Martín Chambi, pioneiro que registrou a vida dos índios

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2012 | 03h09

Ao ser consagrado como o fotógrafo peruano que registrou as melhores imagens de Machu Picchu e a vida dos índios descendentes das culturas andinas pré-colombianas, Martín Chambi (1891-1973) foi associado aos grandes nomes da fotografia de sua época - liderando a lista de afinidades o alemão August Sander (1876-1964), cujos retratos de pessoas socialmente deslocadas revelam um olhar terno sobre os discriminados. Chambi, aliás, tinha um histórico bem parecido com o de Sander. O peruano descobriu a fotografia aos 14 anos, quando trabalhava numa mina de ouro de Carabaya, explorada pelos ingleses. O alemão, filho de carpinteiro, também viu uma câmera pela primeira vez nas mãos de um fotógrafo que trabalhava para a companhia de mineração da qual era empregado em Herdorf, sua cidade natal.

Chambi ganha, a partir de sábado, sua terceira exposição em São Paulo (as outras duas foram na Pinacoteca do Estado, em 2003 e 2006). Desta vez é uma mostra com 25 imagens (24 delas inéditas) selecionadas pelo neto do fotógrafo, Teo Allain Chambi, especialmente para a Galeria Fass.

São fotografias desestabilizadoras, como as de Sander, não tanto pelos tipos incomuns - que tornaram o alemão alvo fácil dos nazistas -, mas principalmente pela coragem de lançar um olhar antropológico sobre o Peru que seus contemporâneos não tinham. Tanto é verdade que a fama de Chambi se deu graças à curiosidade que despertava nos estrangeiros seu estúdio em Cusco. Enquanto os colegas preferiam ostentar na vitrine a alta burguesia peruana, Chambi escancarava a miséria das deserdadas populações indígenas andinas. Mestre da fotografia documental, Chambi é também uma referência do uso da luz natural em composições de rara beleza e sofisticada construção.

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