Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

Mescla de estilos e ''panelas'' no Rio

A Palavra Toda também recebeu música, teatro e artes visuais; MCs deram tom da diversidade

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2011 | 00h00

Com um semblante que se traduzia em assombro e alegria, Heloísa Buarque de Hollanda avaliava, na terça-feira à noite, sua mais recente empreitada: o festival de poesia A Palavra Toda, gratuito e inédito. "Eu que inventei e eu mesma me espanto. A gente afirma que a poesia não é para todos, que é de elite, mas, na hora do "vamos ver", não é, não."

A pesquisadora tem toda a razão. Bastava olhar para a plateia do Espaço Sesc, em Copacabana, para ver nos rostos (de estudantes, senhorinhas, escritores e aspirantes) o interesse e a satisfação - maiores do que um certo estranhamento -, de ver misturados poesia, teatro, música, artes visuais, durante quatro horas.

Foi assim na segunda e na terça, quando se revezaram no palco do teatro de arena gigantes da poesia brasileira - Antonio Cicero, Carlito Azevedo, Geraldo Carneiro, Salgado Maranhão - e nomes novos e instigantes, como Alice Sant"Anna, Ramon Mello, Omar Salomão, Maria Rezende e Marília Garcia, "marinheiros de primeiros naufrágios".

Nas duas noites da "festança da palavra", a participação de MCs deu o tom da diversidade. Na terça, o grupo REP (Ritmo e Poesia), formando por cinco jovens que se reúnem para batalhas nas ruas semanalmente, contagiou mesmo os não iniciados, com versos de improviso que falavam da sensação de se estar "a dois passos do paraíso, mas a um do precipício". Ocuparam o mesmo espaço para onde iriam se dirigir mestres e doutores da língua portuguesa, caso de Mariano Marovatto, Aderaldo Luciano, Masé Lemos e Paulo Henriques Britto, entre outros, que recitaram suas poesias. Diferentes dicções, "alta" e "baixa" cultura; o mesmo entusiasmo com a "matéria-prima".

A costura era feita pelo provocador Chacal, o homem-palavra, símbolo da poesia marginal dos anos 70, que também leu das suas para o "desrespeitável público". "Já fiz muito evento de poesia, mas nada assim tão didático, com os diferentes suportes, as gerações misturadas, essa profundidade toda", contou o criador do longevo "centro de experimentação poética" CEP 20.000, que festejou 20 anos em 2010.

"Queremos refazer uma ou duas vezes por ano. O Rio é muito associado ao samba e ao carnaval, e, com esse calor, é difícil até pensar. Mas é legal mostrar que há uma inteligência na cidade, mesmo no verão. Até porque o Rio sempre foi forte na poesia falada, desde Vinicius de Moraes à poesia marginal. Em São Paulo, é mais a poesia concreta."

Empolgada com a "demanda reprimida" que constatou, Heloísa, que há muito acompanha essa diluição de fronteiras na internet, também já pensa no próximo festival. Quer que seja "grandalhão", com mais "misturas de panelas". Possivelmente serão chamados escritores de fora do Rio - esta primeira edição teve elenco bem carioca. Mesmo porque tudo foi organizado em apenas um mês.

Quase todo mundo que foi convidado aceitou de pronto - quem não veio foi porque já tinha compromissos assumidos. "Os poetas querem expor seu trabalho, e não ficar só no suporte do livro", disse Ramon Mello, coorganizador.

O mais bonito é ver o encontro: de turmas, de estilos, de palavra e música (MC Nike, Letuce, Madame Kaos, Fausto Fawcett), poesia e teatro (com Paulo José e Ana Kutner mostrando um pedaço de seu belo trabalho sobre Ana Cristina César, e Carla Tausz encenando Hilda Hilst).

"Saio daqui louca de vontade de escrever, poderia ficar muito mais horas. Encontrei vozes bem diferentes", conta Maria Rezende, que tem 32 anos e dois livros publicados.

"Isso aqui abriu minha cabeça. Sou formado em Farmácia, mas escrevo, e me identifiquei muito com a maneira com que a minha geração escreve. Quando estudo, eu só vejo o que os poetas já mortos viveram", comentava Ricardo Fernandes, de 24 anos. "Isso aqui vai pegar! O Rio é a cidade da poesia!", predisse Salgado Maranhão.

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