Mergulho profundo

Elogiada no Rio, A Marca da Água, da cia. Armazém, estreia em São Paulo

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2013 | 02h07

Não é todo dia que se encontra um peixe perdido no quintal. Um fato como esse tem algo de estranho, imprevisto. Mas também soa absolutamente trivial. Até se espera que suscite algumas perguntas: como, afinal, o bicho teria ido parar ali? Difícil, contudo, imaginar que um dado assim, prosaico, sirva de estopim para uma mudança tão radical quanto a vivenciada por Laura, protagonista de A Marca da Água.

Concebida pela Armazém Cia. de Teatro, a montagem que poderá ser vista no Sesc Santana a partir de sábado debruça-se sobre a transformação de uma mulher comum. "Ela parte de uma coisa ordinária para tentar encontrar o extraordinário", define Paulo de Moraes, diretor do grupo que completa 25 anos de carreira e concorre, com esse título, em três categorias do Prêmio Shell: autor, atriz e cenário.

De certa maneira, o percurso da personagem da peça assemelha-se ao de certas criações de Clarice Lispector: uma epifania vem para desarrumar tudo aquilo que jazia tão tristemente tranquilo. Um detalhe insignificante irrompe para pôr fim a um antigo estado de anestesia e torpor. Curioso é que, em A Marca da Água, esse "sopro de vida" seja representado, justamente, por uma doença.

Durante a infância, Laura já havia sido submetida a três cirurgias cerebrais. Agora, o distúrbio neurológico do qual sofria está de volta e faz com que sua cabeça comece a encher-se indefinidamente de água. A personagem, no entanto, recusa-se a buscar ajuda médica. "Prefiro o sintoma à cura", diz a protagonista, interpretada por Patrícia Selonk.

Não importa quão doloroso seja. Ela escolhe o autoconhecimento à antiga condição de letargia. De que serve a vida passar, plácida? Talvez, a heroína dessa história acredite que valha mais a potência trazida pela iminência da morte. "Aos 40 anos, essa mulher se depara com uma vida que não queria, uma tristeza cotidiana. Ela quer viver de forma potente. Mas descobre essa força em uma enfermidade, algo que não é aparentemente positivo", comenta o diretor, que assina também a dramaturgia ao lado de Maurício Arruda Mendonça. "Ela não está preocupada com a duração, mas com a qualidade, a plenitude desse tempo."

A água que toma o cérebro de Laura tem um insólito efeito: dentro de sua cabeça, ela passa a escutar, sem interrupção, uma música. "Não chega a ser algo comum, mas trata-se de um fenômeno existente e estudado", observa Moraes.

Diferentemente de seus outros trabalhos, que costumam consumir um longo tempo de experimentações, A Marca da Água foi gestada em um período relativamente curto. Convidada a participar do Festival Cena Brasil Internacional, ganhou sua primeira versão em dois meses.

A despeito do prazo curto, ao escolher lidar com essa temática, o grupo muniu-se de muitas referências. A principal delas: Oliver Sacks. Entre os livros do escritor e neurologista britânico, está Alucinações Musicais, volume que descreve fenômenos muito similares àquele que aparece na peça do Armazém.

A partir de dado momento, o objetivo principal da protagonista passa a ser a captura dessa melodia que apenas ela escuta. "Laura quer afundar nessa sensação pra conseguir reproduzir a música que ouve. Quer corporificar aquilo que a mantém viva", diz o encenador.

Na montagem, tanto a música quanto a água não são apenas imagens evocadas pelos diálogos. Mas elementos que ganham corpo e forma em cena. Para poder executar ao vivo a trilha do espetáculo, sob direção musical de Rico Viana, os cinco intérpretes estudaram acordeão. Já a água desponta como mote da cenografia: formada por um tanque de 3 mil litros.

"Mas essa água não está ali para ilustrar o enredo", esclarece Paulo de Moraes. "Na verdade, foi o caminho inverso. A história é que surgiu de uma pesquisa formal. A gente queria começar o projeto não pelo texto, mas pelo corpo. E água era algo com que nunca tínhamos trabalhado de uma forma incisiva. Queríamos ver quais desafios isso poderia nos propor."

Desafios, por exemplo, para se movimentar no palco. Afinal, a valorização do corpo e das técnicas acrobáticas surge como uma das características mais marcantes do grupo desde o seu surgimento, em 1987.

Além disso, à medida que a pesquisa para o atual espetáculo avançava, outras questões, de cunho filosófico, foram sendo incorporadas. Um dos nortes, nessa etapa, foi A Água e os Sonhos, belo ensaio de Gaston Bachelard sobre a natureza mítica e poética das águas. "É importante dizer, porém, que por mais conceitual que possa aparecer, estamos diante de uma história simples", alerta o diretor. A história de uma mulher em busca de si.

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