Mergulho no Brasil real através do riso

Billi Pig é a primeira incursão de José Eduardo Belmonte na comédia e também sua primeira aposta num filme que busca comunicação maior com o público. Não que seja uma obra-prima, mas este diálogo de Belmonte com a chanchada apresenta atrativos que outras comédias brasileiras recentes em geral não têm.

O Estado de S.Paulo

06 de março de 2012 | 03h08

Por exemplo, escapa ao modelo Globo de produção, o que já é um avanço. Não usa a grosseria como chamariz fácil. Nem por isso deixa de ser apimentado, o que é sempre um condimento interessante para uma obra que se propõe a divertir. E, com isso, conserva, como uma espécie de ruído de fundo, a presença do coração selvagem de Belmonte, raro diretor de fato subversivo em sua visão de mundo.

Desse modo, apesar do recurso fácil (e um tanto cansativo) do porquinho de plástico falante, Billi Pig apresenta bons momentos, também por conta do elenco afiado.

Milton Gonçalves dá show como um falso padre priápico. Selton Mello está igualmente envolvente como o corretor de seguros picareta que tenta passar a perna em um bicheiro. Grazi Massafera, em sua estreia no cinema, não compromete como a perua gostosona com aspirações a atriz (talvez a identificação com o papel a favoreça). Otávio Müller é marcante como o poderoso chefão contraventor que espera por um milagre para salvar a filha, assim como Murilo Grossi, no papel do seu truculento braço direito. Preta Gil está hilária como dona de uma funerária, esperando um morto de ocasião para faturar com o enterro.

Enfim, o elenco é uma coisa boa de se ver e ouvir, e quem escolhe time dessa qualidade, mesclando veteranos a novatos, já sabe que o jogo vai fluir. Desde que haja uma direção cheia de empatia pelos personagens e pelas pessoas, o que parece ser uma marca registrada de Belmonte, cineasta conhecido como agregador.

Billi Pig é despretensioso, uma comédia sem qualquer veleidade intelectual aparente. Não tem a ambição de outros trabalhos do diretor como Subterrâneos, A Concepção, Se Nada mais Der Certo ou Meu Mundo em Perigo. Aposta no tom da chanchada, com pegada suburbana bastante interessante e uma piscadela à crítica social, cara ao cineasta: que mundo é esse, afinal, em que trapaceiros tentam passar a rasteira em colegas?

É nessa percepção do desacerto geral do mundo que entrevemos a assinatura de Belmonte, em uma obra muito mais comportada do ponto de vista estético do que as suas outras. O tom anárquico, se o termo cabe, fica no enredo, com seu apelo humorístico ao fantástico (o brinquedo que se torna um Grilo Falante da personagem de Grazi, Marivalda) e no tom de interpretação dos personagens, em seu timing.

E, em especial, nessa familiaridade com os elementos populares brasileiros, em geral muito estranhos aos nossos cineastas classe média - o samba, o estilo de vida da periferia, um certo pragmatismo bem próprio de quem nada recebe de graça de ninguém, a esperança de levar vantagem em tudo, que se liga, por paradoxo, a certa solidariedade, etc. É ótimo, enfim, ver um filme que tenha não a zona sul como paisagem, mas Marechal Hermes. Repare como a música, ligada à alegria de viver, está presente em Billi Pig e de maneira muito vibrante.

Em Billi Pig temos o Brasil real a impregnar o filme, e não de maneira artificial, apenas para constar. Com todos os seus defeitos (que existem), ele sobe na cotação por esse grau de autenticidade. Rimos pouco nessa comédia. Sorrimos muito. E, quando isso acontece, é de nós e para nós que estamos rindo e sorrindo. Como o fazemos quando nos reconhecemos em algo.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

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