Merce Cunningham apura o significado da dança

São apenas duas oportunidades, hoje e amanhã, para assistir à companhia de Merce Cunningham no Teatro Municipal de São Paulo. Trazida ao Brasil pela Antares Promoções, com o dinheiro público dos incentivos fiscais que beneficiaram a Petrobrás e a Embratel, a companhia dançará Sounddance (1975, cenários de Mark Lancaster, música de David Tudor) e Biped (1999, música de Gavin Bryar, figuras de animação em 3D de Paul Kaiser e Shelley Eshkar nascidas do software Character Studio). Duas chances para se banhar em um dos mais importantes pensamentos em dança já desenvolvidos desde que o homem é homem. Sim, porque aquilo que Merce Cunningham apesenta na forma de coreogafia é, na verdade, uma cosmogonia (uma formulação filosófica do mundo), como propôs com grande originalidade a pesquisadora Rosana Van Langendonck Augusto na sua tese de doutorado (Merce Cunningham, Processos de Significação em Dança, 2002).O mais trivial tem sido apresentar a dança de Cunningham como aquela que se contrói sem música e sem cenografia, sendo a ela juntada somente no momento de ir para a cena. Embora seja repetida à exaustão, como um mantra acionável logo que se pronuncia o nome de Merce Cunningham, essa informação, repare bem, não explica o que se vê. O final desse mantra sempre agrega também uma mitificação do acaso (Cunningham joga dados, Cunningham usa o I Ching, etc.). E como se trata de uma dança difícil de ser gostada num primeiro contato, especialmente porque a maioria de nós vem sendo domesticada pelos meios de comunicação, esse amontoado de palavras toma o lugar de algo que não acontece: a promoção do entendimento sobre o que Merce Cunningham faz. Precisamos, portanto, nos livrar desses passaportes falsos e buscar modos mais eficazes de adentrar naquilo que Cunningham produz. As suas próprias palavras, numa entrevista exclusiva ao Estado concedida em seu estúdio, em Nova York, ajudam. A respeito da banalização sobre o não relacionamento entre coreografia, cenário, figurinos e música, ele diz: "O que me interessa é aquilo que só pode existir quando dois ou três desses elementos são colocados juntos, aquilo que nenhum deles poderia produzir sozinho e só aparece com a junção." Dispositivo número um: complexidade. Não saia para ver Cunningham sem levar uma boa compreensão desse conceito. "A complexidade se desenvolve nela mesma", lembra ele. É preciso familiaridade com teorias evolucionistas para captar o alcance da sua frase. Dispositivo número dois: para adentrar no mundo que Cunningham oferece o que menos importa é gostar ou não gostar.Dispositivo número três: o que conta, no percurso de Cunningham, é sempre o que ainda não existe, e nisso a compreensão do tempo funciona como item básico.O presente se torna um instante fugaz, quase inapreensível, um presente-sempre-passado. Dispositivo número quatro: o computador não representa uma nova fase com sentido inaugural. E agora estamos prontos para o dispositivo número cinco, o último a ser aqui proposto: Cunningham sempre esteve interessado pelo que pode o corpo. "Tento fazer o palco ficar mais perto de como as coisas acontecem na natureza", esclarece ele. Uma cosmogonia mesmo, como propôs a pesquisadora Rosana. Merce Cunningham Dance Company. Livre. Teatro Municipal (1.464 lug.). Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, Centro, 222-8698, metrô Anhangabaú. 3.ª e 4.ª, às 20h30. De R$ 30 a R$ 120.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.