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Mercê

O velho hábito brasileiro de deixar pra lá que as coisa se ajeitam se solidificou

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

17 de fevereiro de 2019 | 01h00

Curiosa palavra, “mercê”. Estar “à mercê” de algo que você não pode controlar, ou de alguém com o poder de decidir sua vida. Depender de algo ou de alguém sem reação possível. Estar entregue ao capricho – ou à benevolência, ou à maldade – de outro. Estar indefeso diante da vontade alheia, ou das forças da Natureza.

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Faça um inventário de tudo que tem você à sua mercê, a começar pela sua própria saúde. Você é refém dos seus órgãos, não manda em nenhum deles. Você está à mercê de todos os perigos da cidade em que vive, quanto maior a cidade, mais perigosa. Você está à mercê do trânsito, do possível galho de árvore que o vento derruba na sua cabeça, do assaltante, do etc. Viver normalmente é estar à mercê do que pode acontecer.

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No Brasil dos últimos tempos, nos descobrimos à mercê de outra coisa, de uma síndrome que se aproxima de um vício nacional. Os desmoronamentos com mortes em Mariana e Brumadinho e os dez meninos mortos no Rio não podem ser atribuídos à fatalidade, que tudo desculpa. Houve descaso, negligencia, má administração, decisões erradas – enfim, culpados.

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Vivemos à mercê do velho hábito brasileiro de deixar pra lá que as coisa se ajeitam (em Mariana não se ajeitou nada ainda). Este caso – talvez pelo fato de as tragédias terem sido tão próximas umas das outras, incluindo aí a terrível morte do Boechat – pode mudar alguma coisa, mas não aposte nisso. O velho hábito se solidificou. Afinal, são décadas de predomínio do lucro sobre a segurança e indiferença pelo social. E nós à mercê da incompetência.

 

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