Mercado disputa cópias vintage de mestres da fotografia

A lógica do mercado de fotografia brasileiro não é a mesma do circuito internacional. Até por ser maior o número de mecenas no Hemisfério Norte, compras em leilão significam automaticamente acréscimo nos acervos dos museus americanos e europeus. No Brasil, a disputa por cópias vintage - tiragem feita pelo próprio autor em data próxima da revelação - inexiste. Mas pode crescer a partir desta quarta-feira, quando se realiza o primeiro leilão dedicado a tiragens originais de mestres da fotografia, desde os pioneiros europeus Lewis Carroll (1832-1898), Eugène Atget (1857-1927) e George Brassaï (1899-1984) aos contemporâneos norte-americanos Bruce Weber e Annie Leibovitz, passando pelo gigante da fotografia Cartier-Bresson (1908-2004).

ANTONIO GONÇALVES FILHO, Agência Estado

08 de agosto de 2012 | 10h50

O leilão reúne 40 fotografias de colecionadores particulares (quatro estrangeiros e dois brasileiros) e parte do dinheiro arrecadado será doado à Childhood, organização brasileira criada em 1999 pela rainha Sílvia da Suécia que luta pelos direitos da criança e contra o abuso e exploração sexual infantil. Sob curadoria do editor Pedro Corrêa do Lago, o leilão tem, de fato, fotos raríssimas, entre elas uma imagem da Rua Sade, em Antibes, no Sul da França, feita em 1937 por um dos expoentes do movimento surrealista, Man Ray (1890-1976).

O interessado terá de desembolsar mais do que R$ 90 mil (lance mínimo) para ter a foto de Man Ray em sua coleção - ou doá-la a um museu, propósito mais generoso. Apesar de reproduzida em muitos livros, a tiragem original dessa foto, segundo o curador, resume-se praticamente à cópia no acervo do Centro Georges Pompidou, em Paris, e a que está no leilão paulista.

Duas outras fotos raras devem despertar a cobiça dos colecionadores. Uma delas é uma imagem conhecida do autor do clássico "Alice no País da Maravilhas", o inglês Lewis Carroll (1832-1898). A modelo da foto, Xie Kitchin, era uma linda menina, filha de um professor de Oxford e amigo de Carroll. O lance mínimo é de R$ 70 mil, o mesmo de um retrato do pintor surrealista Salvador Dalí feito pelo húngaro Brassaï em 1932. O próprio fotógrafo não tinha uma cópia vintage de sua obra, mas uma reprodução de 1960. A original foi presenteada por Dalí a uma jornalista norte-americana, em 1936, e vendida por seus herdeiros apenas no começo deste século.

O lance mínimo inicial das outras fotos do leilão gira em torno de R$ 20 mil, embora existam outras tiragem vintage com valores superiores, entre elas a foto aérea de uma aldeia xavante descoberta pelo cinegrafista Jean Manzon (1915-1990) nos anos 1940. "Ele ofereceu a foto ao piloto que sobrevoou a aldeia com ele", conta Corrêa do Lago. "Naquela época, Manzon só fazia reproduções para uso direto e essa é um vintage print realmente raro." O lance mínimo é de R$ 45 mil, pouco inferior ao estabelecido para uma foto de Luiza Brunet seminua, aos 26 anos, clicada por Bruce Weber no Hotel Copacabana Palace, em 1986. Foram tirados apenas cinco exemplares da foto, cujo lance mínimo é de R$ 50 mil, o mesmo de um retrato de Jacqueline Kennedy (depois Onassis) feito por Horst P. Horst (1906-1999) quando Jackie ainda ostentava o sobrenome Bouvier. Foi essa imagem que o fotógrafo Vik Muniz usou para criar sua versão da ex-primeira-dama dos EUA em sua série construída com diamantes.

Vik Muniz é colecionador de cópias vintage, termo que até os anos 1970, lembra o artista, era usado exclusivamente pela indústria do vinho. No caso da fotografia, acrescenta Corrêa do Lago, o aspecto fetichista da aquisição fica em segundo plano diante da importância do original como documento histórico - e, prova disso, é a foto da norte-americana Inge Morath (1923-2002) reunindo dois dos maiores nomes do cinema (Elia Kazan) e do teatro (Arthur Miller) dos EUA. A fotógrafa, na época, era casada com Miller, que, curiosamente, seria denunciado como comunista por Kazan, em 1956, diante do Comitê Parlamentar de Atividades Antiamericanas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

LEILÃO VINTAGE

Museu da Casa Brasileira (Av. Faria Lima, 2.705). Telefone (011) 3078-3438. 19 h, exposição 20h30, leilão.

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