Mercado aposta na litertura infantil

Foi necessário aparecer um príncipe encantado chamado Harry Potter para o Brasil descobrir que possui uma literatura infantil de boa qualidade e ótima de mercado, responsável, só no ano passado, por 46 milhões de exemplares contra 10 milhões destinados ao público adulto.Se o fenômeno de vendas do personagem da escocesa J.K. Rowling é recente, autores brasileiros que escrevem para a petizada mordem a fatia mais gorda do mercado há pelo menos três décadas.O trio formado por Ana Maria Machado, Ruth Rocha e Ziraldo, por exemplo, já vendeu mais de 20 milhões de livros em pouco mais de duas décadas. O prestígio dos escritores também não é menor.O Brasil levou duas vezes o prêmio mais cobiçado da literatura infanto-juvenil em todo o mundo, o Hans Christian Andersen; Lygia Bojunga, em 1983, e Ana Maria Machado, este ano.Apesar dos números e reconhecimento, autores e estudiosos do gênero reclamam da falta de espaço na mídia e de divulgação mais agressiva das editoras. Fora da escola, o principal comprador, a literatura infantil brasileira quase não é conhecida.?Ai de nós, autores de livros infanto-juvenis, se não fossem as escolas. Nos jornais e na TV quase não temos espaço. Por que nossas louras apresentadoras não entrevistam autores e falam de livros em seus programas voltados para um público infanto-juvenil??, pergunta Rogério Andrade Barbosa, escritor e presidente da Associação dos Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil.A antiga Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (criada em 1961 e reformulada dez anos depois) é apontada como a responsável pelo boom da literatura infantil na década de 70. Ela obrigou as escolas a incluírem em seu currículo apenas autores nacionais e determinou também uma série de temas a ser tratada por eles.Com isso, criou uma espécie de reserva de mercado, que alavancou a produção nacional, mas tolheu a criatividade dos escritores em razão da pauta governamental.Ana Maria Machado acredita que os editores se acomodaram a esse nicho de mercado e cruzaram os braços para a divulgação. ?É uma distorção preocupante. O divulgador só se interessa por encaixar os livros em um tema ou outro. A LDB foi uma coisa positiva porque deu um mercado à literatura infanto-juvenil, mas, por outro lado, deu um corte na leitura de clássicos de outros países?, diz.Os departamentos de letras das universidades também dispensam pouca atenção à literatura infantil. ?O gênero está muito mais próximo da pedagogia e ainda hoje está atrelado a ela?, explica Luciana Sandroni, mestre em comunicação pela PUC-SP.Com raras exceções, teses sobre literatura infanto-juvenil são realizadas por acadêmicos dentro das faculdades de educação, e não nas de letras. Há dois grandes marcos da literatura infantil brasileira. O primeiro, claro, é Monteiro Lobato. Até ele, os petizes liam histórias estrangeiras, traduzidas e adaptadas, além de alguns poucos títulos nacionais, estes mais preocupados em ensiná-los a se comportar do que em entretê-los.Lobato foi também um dos primeiros escritores a levar a sério a literatura para crianças. Ele só publicou seu primeiro livro do gênero, A Menina do Narizinho Arrebitado, em 1920, quanto tinha 38 anos.Para Nelly Novaes Coelho, autora de Panorama Histórico da Literatura Infantil e Juvenil, a maior originalidade do escritor paulista foi aliar a tradição à cultura brasileira e ser, ao mesmo tempo, inovador e revolucionário. ?Ele possuía um forte desejo de ruptura que vai se concretizar na invenção literária que caracteriza seu estilo para crianças: a fusão do real com o maravilhoso, no qual a lógica tradicional é abolida e um novo espaço é aberto para a crítica?, diz.Com a caça às bruxas do getulismo, Lobato foi acusado de subversivo e comunista e teve sua obra colocada no índex. Gerações sucessivas, contudo, continuaram lendo-o, mas, a despeito de um ou outro grande nome da literatura escrever belas obras infantis (Clarice Lispector, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes e Graciliano Ramos), faltava um conjunto de autores capaz de se erguer à altura do mestre. Isso começa a acontecer quando, em 1969, a Editora Abril lançou a revista Recreio e convidou gente que nunca havia escrito para crianças para elaborar textos infantis. Foi essa a porta de entrada de gente como Ana Maria Machado, Ruth Rocha e Lygia Bojunga Nunes.Na década de 70, com o governo militar realizando grandes compras para as escolas, o mercado absorveu um grande time de autores, incentivado pelo aumento das tiragens.Outro aspecto decisivo foi o clima político reinante naqueles anos. Muitos escritores se sentiam mais à vontade para falar de liberdade nos livros infantis ? os quais as garras da censura dificilmente atingiam.Nas décadas seguintes, o segmento desse gênero foi engordando e se tornando a menina dos olhos do mercado editorial. Sem muito alarde, a literatura infantil brasileira se impôs e agora quer ter sua importância reconhecida, assim como Harry Potter, o maior fenômeno editorial da história.

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