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Mentiras verdadeiras

O diretor Pierre Salvadori, de Uma Doce Mentira, conta como Lubitsch o salvou

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2011 | 00h00

Audrey Tautou e Nathalie Baye interpretam mãe e filha em Uma Doce Mentira. O filme de Pierre Salvadori estreou sexta-feira, na cidade. É bom. Em São Paulo e no Rio, onde veio para prestigiar o Festival Varilux do cinema francês, Audrey disse o que Nathalie já antecipara para o repórter em Paris, em janeiro e, depois, em maio, em eventos promovidos pela Unifrance para promover a produção do país. Salvadori escreve bem e filma melhor ainda, elas acham - e ele ainda tem uma sensibilidade toda especial para trabalhar com atores, principalmente com atrizes.

Veja também:

link Crítica de 'Uma Doce Mentira'

Uma Doce Mentira chama-se Des Vraies Mensonges no original. Mentiras verdadeiras - uma contradição, em termos. Audrey faz uma cabeleireira. Ela tem esse admirador secreto, que lhe envia uma carta anônima. Sua mãe, Nathalie, anda deprimida. Audrey resolve ajudar mamãe, inflando seu ego, como se a carta anônima de amor fosse para ela. Todos os quiproquós da narrativa evoluem a partir daí, incluindo o desfecho, quando mamãe, sabendo da verdade, vinga-se da filha.

Não é uma trama convencional, e Salvadori - os franceses acentuam o I, ao dizer seu nome, fica Salvadorí - contou como tudo começou. "É sempre a mesma coisa. Tenho um roteirista que é minha alma gêmea, como se diz, Benoit Graffin. Os filmes terminam surgindo quase sempre do mesmo jeito. A gente se encontra e começa a contar histórias. Eu falei de uma amiga, a quem havia ocorrido uma coisa que poderia ser considerada engraçada, ou nem tanto; Benoit me contou outra história, de outra amiga. Pensamos que seria possível somar as duas, acrescentando o tempero de um rapaz. Como as personagens são mãe e filha, o homem não poderia ser muito jovem."

Ele acrescenta que escreveu o papel pensando em Nathalie Baye, que só ela poderia criar essa espécie de loucura doce de Maddy. Audrey Tautou foi outra escolha que se impôs, imediatamente - Salvadori queria voltar a trabalhar com sua atriz em Amar... Não Tem Preço, de 2006. Sami Bouajila foi outra escolha tranquila e a ascendência árabe acrescenta um mistério ao personagem. Com os atores certos, diz o diretor, as coisas ficam muito mais fáceis. Quem conhece o cinema de Salvadori sabe de sua preferência por personagens vacilantes, que não têm muita confiança e duvidam deles mesmos.

Salvadori explica - "Gente que sabe muito, os chamados eruditos, muitas vezes se impressiona com os autodidatas, da mesma forma como esses, inversamente, ficam complexados diante de quem sabe demais. Esse é um background presente em Uma Doce Mentira, como em todos os meus filmes e eu tenho de fazer a minha autocrítica. Quando jovem, era muito inseguro. Não tinha opinião sobre nada, era muito influenciável, terrivelmente tímido e preferia ficar calado. Devia passar a ideia de um autista, e aí o cinema me salvou. Um filme me encantou a tal ponto que me liberou, até a palavra."

Este filme foi uma comédia de Ernst Lubitisch, Heaven Can Wait, que no Brasil foi lançada como O Diabo Disse Não, com Don Ameche e Gene Tierney. Desde então, Salvadori tem procurado emular o encanto particular que encontrou em Lubistch, não o imitando, mas procurando absorver seu humor, a capacidade de observação. Isso passa pela "écriture", o prazer que ele tem de escrever roteiros, mas principalmente pela realização, e o trabalho com os atores. Uma das cenas mais interessantes de Uma Doce Mentira, como mise-en-scène, refere-se exatamente a como Maddy descobre a mentira da filha.

O diretor havia previsto a cena de um jeito - Maddy deveria escutar a confissão de Emilie por trás de um biombo, mas o plano não funcionava. Veio do diretor de fotografia Gilles Henry a ideia de que ambos utilizassem de novo a lanterna chinesa que já haviam empregado em Après Vous, há quase dez anos. O plano ficou muito melhor e transforma Maddy e Paulette, Judith Chamla, que também está escutando, em espectadoras, como se estivessem assistindo a um filme. Cria-se uma espécie de distanciamento, de ironia. A cena dentro do filme vira um filme. De novo, o título original, Des Vraies Mensonges. Com Lubitsch - e outros grandes -, Salvadori descobriu que a mentira é muitas vezes, senão sempre, o atalho para a verdade.

UMA DOCE MENTIRA

Título original: De vrais mensonges. Direção: Pierre Salvadori. Gênero: Comédia (França/2010, 105 minutos). Censura: 10 anos

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