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Mentira benigna

Saudade do tempo em que me faziam de bobo e eu gostava.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2014 | 02h06

Nada a ver com os dias de hoje, em que, embora escaldado, ainda vou às vezes na conversa de algum político. Falo das mentiras benignas com que amorosamente nossos pais nos engambelavam. Em algumas, eles mesmos chegavam a acreditar. Por exemplo, os três tons da alma, a qual, dependendo de como nos comportássemos, podia mostrar-se branca, cinza ou preta. A minha quase sempre estava negra, nigérrima, dadas as atividades pecaminosas a que me entregava, sobretudo aquela que hoje poderíamos descrever como modalidade manual do selfie.

As mentiras benignas incluíam a cegonha, que também nos levava no bico, e o Papai Noel. A ave europeia não tardava a dar lugar ao papo meio agrícola a respeito da sementinha que o papai plantava na horta ginecológica da mamãe. O outro, com suas renas, seu trenó e pesadas roupas de lapão, também não durava muito em nossa fantasia de criança. Mas que maravilha!

Curiosamente, nem as feministas reclamavam do silêncio em torno de uma hipotética Mamãe Noel. Os fascistas tentaram emplacar um natimorto "Vovô Índio". Todos nós gostávamos do chamado Bom Velhinho - ou quase todos, pois agora me lembro do Arthur: aos 6 anos, tomado de fúria, meu amigo, de seu natural sereno, engalfinhou-se com um enorme Papai Noel inflável, levando-o ao solo, aos socos e pontapés, por motivos que até hoje ele mesmo não explica.

Nem tudo corria bem nos Natais de antanho. Meu tio João Antônio, durante anos, disfarçou-se com roupa vermelha, barrete e barbaças brancas, para encantar os 11 filhos, mas também passar recados. Até o dia em que anunciou: não vai ganhar presente quem comeu as uvas do quintal antes da hora. O bastante para que a Helena, 5, 6 anos de idade, se pusesse a arder numa febre que lhe custou um Natal de molho.

Os pais, sutilmente, nos levavam a não fazer pedidos fora do alcance de seus holerites, e em geral éramos atendidos. Que me lembre, tive apenas um sonho não realizado por Papai Noel: aos 4 anos, já não sei se num Natal ou num aniversário (há apenas mês e meio entre as duas efemérides), pedi e não ganhei um par de muletas, que para mim eram brinquedo, como a perna de pau, não utensílio ortopédico.

Meninote, meu pai deixou a família no aperto ao pedir "um passarinho diferente". Os irmãos mais velhos coçaram as cabeças até que de lá saltasse a ideia de pintar as penas de um vulgar papa-capim, daí resultando o "Camuflage", multicolorida bizarria ornitológica.

Um dia o passarinho entrou na muda, e o processo, inescapável, depenou também as fantasias do menino. O que era Camuflage regrediu a papa-capim - e seu desencantado dono viveu a hora amarga em que nos damos conta de que Papai Noel é o pai da gente. Acontece ainda, e não será surpresa para mim se na esteira do próximo Natal algum brasileirinho descobrir que seu mico-leão-dourado é só um mico, ou nem isso, um sagui tingido, ou que seu cão de raça já foi vira-lata.

Da minha infância para cá, em algum momento caiu em desuso o costume de deixar sob a árvore pares de sapatos a serem recheados de mimos quando as renas passarem, na noite de 24 de dezembro. Pode ser que Papai Noel tenha ficado traumatizado ao se deparar com um par de crocs.

A tradição se mantinha no início da década de 1930, quando se deu uma história que vale contar.

O escritor Aníbal Machado, futuro autor de A Morte da Porta-estandarte, vivia situação dramática: sua mulher, Aracy, morrera de parto, deixando-lhe cinco filhas (uma das quais, Maria Clara Machado). No leito de morte, conta Renard Perez, Aracy pediu à irmã, Selma, de 17 anos, que socorresse Aníbal naquela emergência.

A adolescente, que pretendia entrar no convento, adiou o projeto - definitivamente arquivado depois que ela, meses mais tarde, encontrou em seus sapatos uma carta do cunhado. Não sei se aquela foi a única intermediação casamenteira de Papai Noel; limito-me ao que se pode comprovar: pouco tempo mais tarde, havia sob o teto dos Machado um novo casal, Selma e Aníbal, pais de uma garotinha, Aracy Maria.

Em tempo: Papai Noel, esqueça por favor as muletas, até porque faz tempo que não brinco disso. O mesmo não digo, porém, de eventual correspondência que o senhor queira deixar em meus sapatos numa noite de Natal.

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